top of page

Um site erótico, um enquadramento terno, uma garota filipina dorme enquanto nada acontece

Pesquei a conversa alheia no balcão do bar. A moça reclamava de grana. Fim do mês a conta não fechava. “Vou ser uma daquelas meninas que ficam se exibindo na internet em sites pagos...”, desabafou ela ao cara sentado ao seu lado. “Porra, não faz isso não. Tá maluca”, ele repreendeu. Depois da bronca, seguiu-se um breve silêncio... Naquele hiato de dez segundos, ela deve ter ponderado se ganharia com a brincadeira, e o rapaz, possivelmente, a imaginar sua bela amiga sensualizando num site qualquer. Eu devo ter pensado o mesmo que ele nos mesmos dez segundos. Em seguida, os dois mudaram a chave e falaram de uma banda de rock local. Voltei minha atenção ao copo de chopp.

Cheguei em casa e a fala da garota ainda circulava no labirinto do cérebro em que a curiosidade, do nada, se depara com o desejo. Resolvi dar uma bisbilhotada no que a rede oferecia gratuitamente. Nunca toparia pagar pra ver uma celebridade decadente num onlyfans da vida. Joguei “cam girl” no google e logo apareceu um site hospedado no México. Nada de pornografia. Se a moça do bar estivesse lá, só exibindo as pernas, já teria umas boas gorjetas, pensei. Pois plateia havia pra tudo, até um simples bate-papo. Dei scroll e a coisa não acabava. Numa olhadela, percebi uma janela que fugia à luminosidade padrão. Na penumbra, uma garota dormia. Chequei a nacionalidade: filipina. Pelo enquadramento, só era possível ver o contorno do rosto e parte do corpo sob uma grossa coberta. Os cabelos encobriam parcialmente a face e alguns fios se atreviam na boca semiaberta. No meio de tanta luz e movimento, aquela era uma janela noturna e serena através da qual se via um anjo dormir. Difícil arriscar a idade. Podia ser 20 ou 40. A escuridão deixava tudo distante e o rosto da moça era um tímido efeito de luz com fundo preto. Aqui, tarde da noite; naquelas bandas, o sol ardia. Teria dançado toda a madrugada e se insinuado até a exaustão diante de olhares famintos, tombou na cama e esqueceu a câmera ligada. Ou, na contramão das expectativas, dormir diante do celular seria apenas sua performance mais sublime. Achei bizarro não ser o único espectador da cena. Sete ao todo. Imaginei um cara gordo, roncando diante da tela do computador, um insone esperando um milagre de ver seu objeto de desejo acordar, ou, quem sabe, alguém, como eu, simplesmente a contemplar o sono de uma moça asiática bonita. Percorri outras janelas incomuns. Davam para ambientes vazios onde nada acontecia. E lá também, 8, 10, 30 espectadores, que nada viam além de móveis de um quarto modesto, de alguém que precisava pagar boletos, mas não estava em cena. Não ainda, pelo menos.

Essas janelas eram fraturas numa imensa parede de luz, repleta de maquiagem pesada, ancas insinuantes, olhos vermelhos e decotes generosos. Janelas que enquadravam o estático, a insignificância, o vazio, o sono. O sentido disso só é possível compreender por razões meramente estéticas. As janelas exibiam um gerúndio silencioso, fluxos quase imóveis. Remeteram-me ao cinema de Chantal Akerman que, ao contrário dos choques, das surpresas, do plot twist, nos reconecta com o tempo lânguido das coisas e nos devolve o mundo desespetacularizado. O enquadramento da câmera sempre foi para mim o mundo que merecia ser visto. Quem viveu desde a infância diante de um televisor sabe que o retângulo deve emoldurar algo raro, espetacular, irrepetível, um 11 de setembro, ou a beleza divina dos olimpianos. Não se tolera o nada. Por isso, as salas vazias do site, ou até mesmo a linda garota a dormir, me fizeram lembrar de um dia em que o mundo ficou plantado diante da tela da TV, embora nada acontecesse. Em 2003, os EUA haviam decido iniciar suas operações de invasão no Iraque e destituir Saddam Hussein. Câmeras mostravam pontos de Bagdá a espera de uma chuva de Tomahawks. Não se notava vida movente na cidade. No enquadramento, edifícios, muros, o horizonte, mas nenhum míssil se anunciava. Tal como uma câmera de vigilância em um lugar ermo, a imobilidade entediou os olhos, o silêncio hipnótico da tela precipitou-me no sono. Naquela noite, em que esperava a estupidez se consumar, dormi diante da tela de paisagens mudas. Foi melhor assim. Talvez a moça do bar não precise fazer coisa alguma diante da câmera. Se ficar imóvel ou dormir, será, por si mesma, uma arte.

Natassja Kinski, em cena do filme Paris, Texas (1984). Dir.: Wim Wenders

1 comentário


Silvio Demétrio
Silvio Demétrio
13 de jun. de 2023

Beto, obrigado por estar nessa junto com a gente. É uma honra.

Curtir
bottom of page