Ouroboros ou a trapaça de Jesus
- Alberto Carlos Augusto Klein
- 7 de nov. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2023
Antes de celebrar o grande segredo revelado em sonho, deve-se certificar, ao acordar, de que nada foge às das leis da física ou à lógica do fluxo das coisas. Depois de lavar o rosto, considere novamente tudo que lhe confiado enquanto dormia.
Quando jovem, Einstein sonhou que viu um pasto cheio de vacas. Em razão da descarga elétrica em uma cerca, ele observou todas pularem ao mesmo tempo, enquanto, do outro lado, um fazendeiro flagrava as mesmas vacas saltarem uma de cada vez. As duas perspectivas sobre o mesmo fenômeno só poderiam ser explicadas pelo princípio da relatividade, cuja teoria seria sistematizada anos depois. Vários são os relatos de descobertas importantes sopradas por Morfeu a um simples mortal, às vezes, nem tão simples assim. Foi também num sonho vespertino, depois de devorar um apetitoso joelho de porco (assim imagino), que August Kekulé intuiu a estrutura molecular do benzeno. Sobreveio-lhe, nítida, a imagem de uma cobra devorando sua própria cauda, representação simbólica do ouroboros. A cadeia de carbono, assim, somente se ligaria às moléculas de hidrogênio se fosse fechada, ou seja, se ela mordesse seu próprio rabo.
Faz dias que um sonho não me sai da cabeça. E são poucos dos quais me lembro com tanta vividez. Logo que despertei, os primeiros dois ou três minutos foram de perplexidade. Como não sou um químico ou físico, sabia que aquilo não engrandeceria a ciência, mas a revelação – óbvio que era uma revelação – tinha força suficiente para abalar os alicerces da história e pulverizar a fé de mais de 2 bilhões de terráqueos. Foi-me revelado que Jesus, o mesmo que viveu há 2 mil anos na Palestina, que era carpinteiro e vinha da desprestigiada Nazaré, trapaceara em um de seus milagres. Como os muçulmanos têm Jesus em alta conta - é profeta e nasceu de uma virgem, segundo o Corão – então, some aí mais 1,3 bilhões de fiéis neste cataclisma da fé.
Mas que coisa tão demolidora sonhei? A trapaça transcorreu na tal da multiplicação dos pães e peixes. Ali era a grande prova de demonstração sobrenatural do poder divino. Cá entre nós, curar cegos e paralíticos, muito pregador picareta consegue. Se combinar direitinho, até morto ressuscita. Mas, transformar 5 bisnagas em milhares de pãezinhos ainda tô pra ver. Jesus definitivamente provaria ser o messias. Enquanto ele orava, agradecendo a humilde contribuição que a criança lhe oferecera, a multidão, prostrada e de olhos fechados, não notou quatro camelos carregando dezenas de cestos, entupidos de pães e peixes, por trás da densa copa de uma oliveira. Não sou religioso, mas a cena tirou-me o chão, até porque, mesmo cético, sempre pensei em Jesus como uma figura humana exemplar. Não deveria ter sido eu o escolhido a despertar o mundo da ilusão de um prestidigitador. Talvez meu amigo Mário Fragoso, que não teme nada, ou o irlandês baiano Sean Dempsey, um terrível iconoclasta.
Tais impressões me assaltaram naqueles primeiros minutos de vigília. Lavei meu rosto e ri de mim mesmo. Afinal, nem acredito em revelações, menos ainda em predestinação... deus, quiçá. Sonhos revelatórios pressupõem um segredo solfejado por uma entidade, um deus, ou algo assim, a um predestinado, no caso eu, para mudar os rumos da humanidade. Ou seja, aquilo tudo era uma grande bobagem, que depois viraria piada junto a uma mesa do Bar Brasil com o Marião e o Sean. Se existir um deus, duvido que ele fique por aí, entrando em sonhos alheios, para dizer o segredo do cofre a alguém. Einstein e Kekulé tiveram bons insights de seus próprios sonhos. Só isso.
Ainda assim aquela era uma boa história. Não tinha fôlego para um romance de ficção, mas renderia um conto. Talvez um esquete bem-humorado à la porta dos fundos. Fiquei impressionado comigo mesmo e minha capacidade de sonhar histórias criativas. O sonho resplandecia em pormenores. O script estava pronto. Era só materializá-lo em palavras. Ganharia algum prêmio literário, quem sabe... ah!, a glória, o reconhecimento... milhões de views no youtube se a história fosse adaptada.
Enquanto me perdia em pensamentos, a matrix mandou um recado: olhei pela janela de meu apartamento e vi um leão marinho perseguindo um ônibus em alta velocidade. Não havia acordado ainda...
O sonho, ouroboricamente, devorava a si mesmo. E a história era uma merda.


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