Três livros que não têm fim
- Alberto Carlos Augusto Klein
- 8 de set. de 2023
- 3 min de leitura
Certos livros me deixam melancólico quando chego às últimas páginas. Eles me afundam numa saudade precoce, porque me alertam do fim de uma comunhão abençoada pelo tempo. O encantamento da primeira leitura, que faz arder os olhos e o espírito, terá sua intensidade amainada se a história for revisitada. Restará somente a saudade. Não do livro, pois eu o terei sempre, seja como volume, guardado num lugar nobre da estante, seja como memória indelével de uma história bem contada. Sentirei falta do frescor das palavras que moveram minha alma, comoveram meu olhar, das reações de minhas sobrancelhas e da minha boca. Sim, bons livros mobilizam o corpo.
Estou no fim de Moby Dick, de Herman Melville. Faltam-me ainda umas 40 páginas, que prometem ser tão hipnóticas quanto as 658 que já percorri. Diminuí o compasso da leitura, obviamente. Bons livros costumam ser devorados em poucos dias. Já li muitos nessa toada. Moby Dick, porém, é dessas obras raríssimas e eternas que solicitam um vagar lento dos olhos. Existem diversos matizes na brancura da baleia que seriam atropelados por uma leitura rápida. Me vejo à beira da última página, mas a história se revela a mesma como desde seu princípio. O capitão Ahab não enxerga sua tripulação e se encontra encapsulado em sua mente febril. Entende-se apenas com a própria obsessão de capturar a baleia branca que lhe amputou a perna. As páginas se sucedem, mas quase nada acontece. A história se desdobra para dentro, como se navegássemos em meio às tormentas de um espírito doente. Tudo se passa no fundo, nos silêncios, quase nada emerge à superfície. Apenas se depreende. Tal como os monstros na escuridão do oceano que não preciso ver para ter a certeza de que existem. Eu os pressinto. Por isso, o livro me fascina. É uma experiência de pressentimentos. Algo sempre estará por acontecer. O Pacífico trará seus leviatãs. Ou será o próprio oceano de uma alma perturbada a regurgitar demônios na praia. Vou revisitar essa história. Ela é inesgotável, e sei que cada leitura será uma outra, como lançar um arpão de olhos vendados. Livros assim são como a própria baleia branca. Eles não se deixam revelar totalmente. São lindamente assombrosos.
Assim que concluir Moby Dick, colocarei o exemplar sobre a minha cama, ao lado de outros dois títulos, que já li tantas vezes, mas cujo fim, na verdade, nunca alcancei. Então voltarei ao início: “Call me Ishmael...”. Sim, tem livros que não conseguimos terminar. São, aliás, intermináveis, porque a leitura se transforma em rito. É comunhão revivida no ciclo das estações. É tempo circular.
Um deles é Aleph, do Borges. O leitor iniciado na obra do argentino dirá que seus textos são labirínticos, e que tal é a razão de lê-lo repetidas vezes, como se passássemos, perdidos, pelo mesmo corredor. Verdade. Mas Aleph me evoca outra imagem: a da cebola de infinitas camadas. Quando leio Borges, me sinto uma Matrioska, aquelas bonequinhas russas que, ao serem abertas, escondem uma outra lá dentro, e, assim, sucessivamente. Depois de remover tantas camadas de texto, me percebo também como um leitor que vai se descascando, até ficar minúsculo diante da costura de palavras. Borges parece espelho refletido no outro. E eu, leitor, me descubro refém, indefeso. Nem mesmo me lembro se é o autor a narrar ou uma outra voz de uma camada interior, voz emprestada a um personagem. Numa biblioteca, um livro a falar de outras bibliotecas, que continham pergaminhos, que contavam a história de um sábio, que descreve uma criatura incomum... Quando me dou conta, não consigo voltar. Estou naquele deserto, sem bússola, me sentindo pequeno. Deserto, labirinto aterrador.
O terceiro livro não direi. Suas palavras ainda me doem e me sinto um amputado depois que, ainda jovem, o tomei emprestado de uma biblioteca. Todas as noites leio até as entrelinhas, procurando uma verdade escondida. A minha própria baleia branca.


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