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Um mundo em que as palavras pesam nas mãos (ou o que nos restará para rasgar)

Atualizado: 21 de jun. de 2023

Cheguei pouco antes das onze. Passei pela porta e ele nem olhou pra mim. Estava debruçado sobre um jornal aberto, sustentando uma caneta azul sobre um ponto preciso da página. “Diga aí... Cidade fictícia que dá nome a um filme de Kleber Mendonça”. Respondi. Contou os espaços e então exclamou: “Isso, sete letras!”. Só então levantou o rosto para me cumprimentar. A seção de palavras cruzadas estava toda rasurada depois de algumas apostas erradas. Os rabiscos se compactavam em manchas de tinta, impregnadas nos poros da folha, de modo que não dava para inserir uma letra que fosse em alguns quadrantes. Meu pai não fica sem caneta nem papel. Tem folhas espalhadas em seu escritório com anotações aleatórias: números de telefone, nomes de livros, instruções de uso do computador, uma ideia solta... Não dispensa um jornal que possa estender sobre a mesa e lê-lo empunhando uma caneta. Quantas vezes o flagrei corrigindo ortografia e concordância de redatores incautos. O dia a dia dele é feito dessas coisas que estamos abdicando: tinta, folhas, jornais... Ele tem 80 anos e as letras que tanto ama precisam ter peso. Literalmente. Depois de adivinhar a última charada, molhou a ponta do indicador, pinçou o canto inferior direito da página com a ajuda do polegar opositor a fechou lentamente, desenhando um arco imaginário no ar.

Antigamente os jornais standard tinham um tamanho considerável e tal gesto era mais eloquente. O Estadão e a Folha ocupavam um bom espaço na casa em que vivi minha infância e adolescência, principalmente aos domingos. Eram edições volumosas, pesavam muito e se desmantelavam pelo chão e pelos cômodos conforme cada um ia se apropriando dos cadernos de seu interesse. Atualmente os diários que sobraram definham. Foi esta cena, antes do almoço, que me fez perceber que aqueles gestos de rabiscar um jornal, abri-lo, fechá-lo, dobrá-lo, também se vão com a geração do meu pai. Não imagino os mais novos comprando uma gazeta qualquer numa banca, muito menos sentindo a textura de um papel jornal, ouvindo a folha se dobrar – som dos mais singulares -, menos ainda revisando seus textos com uma caneta em punho.

Às vezes não nos damos conta de que quando se extingue uma coisa, os gestos convocados por ela, que são movimentos e memórias entranhados no corpo, também morrem. Creio – e isto está mais do que evidente - que os livros em papel terão sobrevida maior que os jornais. Talvez eles façam parte dessa reserva de materialidade que nos resta das coisas, uma necessidade ancestral de apreender o mundo pelas mãos. Diante da digitalização da vida, parece que inconscientemente decidimos salvar alguns objetos. Livros, por mais que se desmaterializem em bits, haverá ainda para aqueles que os suspendem sobre a palma da mão no ar, fazendo menção de lançá-los para cima, só para sentir seu peso antes que sejam lidos. São as mesmas pessoas que encontram prazer e graça em agarrá-los pela lombada enquanto os carregam resvalando-os no próprio lombo.

O vinil é outra prova dessa resistência das coisas materiais. É um sinal de que não nos desfazemos facilmente das ranhuras dos círculos, trajetos, em oposição a tudo que se anuncia como liso. De algum modo, arranhar, gravar, cravar, rabiscar, arar, são formas de registro. De escrita. São coisas que fazemos empunhando uma ferramenta. Algo pra agarrar e arrastar pelas superfícies, ancinho ou caneta num pedaço de chão ou papiro. Não por acaso há paralelismo entre escrever e lavrar a terra. A palavra “página” vem do latim “pagus”, que designa o campo a ser semeado. Daí também deriva pagão, o indivíduo que vivia no campo. Meu pai risca forte com a caneta. Injeta tinta nos poros do papel, irriga as folhas ao ponto de rasgá-las. Eis uma memória renitente que se origina na terra e se atualiza cada vez que meu pai abre um jornal. Uma pulsão humana arcaica de rasgar superfícies, rabiscar o solo. Um gesto pra nunca se perder, mas que morre com o corpo. Um dia o jornal acaba, mas terei mais saudades dos gestos do meu pai. Que coisas haveremos então de rasgar?

Man reading newspaper, de Katherine Schmidt (1935)

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