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A escrita como droga ou a vertigem de escrever em meio à fuga

Atualizado: 28 de ago. de 2023

Das experiências mais acolhedoras que a solitude pode oferecer, não consigo conceber algo tão íntimo quanto escrever um diário. Não importa o meio; uma folha ou uma tela. Basta uma superfície para despejar as dores, risadas, prazeres e ofensas. Ainda que se registre a mais pálida impressão sobre uma coisa qualquer, o texto será sempre o espelho dos recônditos da consciência ou a projeção mais escura de sua sombra. Ao olhar para o que escreveu, o autor dirá “Isto é meu!”. Não conheço um lugar em que se possa ser mais “eu” do que num diário. Por isso, jamais imaginei que não reconheceria como minhas as palavras que escrevi certas vezes.


Explico.


Por mais de um ano, a noite caía e me cobria de silêncio. Um silêncio frio de fazer os calcanhares gelarem e o coração tremer. Respirava curto. Corria pra sacada, a fim de puxar todo ar que podia. As moléculas de oxigênio, por capricho, se desviavam. O problema era o silêncio. Não a solidão, exatamente. Havia um ano que não ouvia minha cachorra correndo pela casa ou meus filhos brigando por qual série assistir. A quietude opressiva da noite me obrigava a criar estratégias para respirar. Precisava fugir do apartamento. Ver gente. Nas noites em que não dava aulas, descia para o bar. Quando rolava uma transmissão qualquer de futebol, os decibéis se elevavam ao grau etílico da turba. Me agradava a agitação, que não oferecia pausa nem mesmo nos pênaltis. Me banhava com gosto nos ruídos, gritos de gol e xingamentos trôpegos de álcool. Em noites mais calmas, engatava conversa com quem estivesse no balcão. Sempre tinha esse cara que só tomava Campari. Não me lembro o nome dele. Fazia pós em filosofia. Bom sujeito, que falava de tudo: das Cruzadas, das campanhas de Napoleão, até do infeliz do red pill, com o qual partilhava o mesmo gosto pela bebida. Depois que a palpitação ralentava ao ritmo da prosa e do chopp, voltava pra casa. E o medo do silêncio passava a me espreitar novamente. Meu recurso era pegar o celular e abrir o bloco de notas. Precisava fugir de novo. Corria pelos guetos imaginários com um saco cheio de palavras. Nunca escrevi tanto. Nunca dediquei tanto foco a uma tela e nunca dedilhei com tanta vontade palavras que gemiam no cio. Não que escrevesse bem ou mal. Não era essa a questão. Era intensidade. Escrever em alta velocidade. Com a faca entre os dentes. Não querendo nada além de uma fuga perfeita da noite muda. Corria com os dedos como se estivesse competindo cem metros rasos contra um forte oponente: a ansiedade. Minha arma era tecer palavras como se operasse uma máquina de costura, furando velozmente a superfície. Não à toa isso me evoca o episódio em que os dadaístas berlinenses Raoul Hausmann e Richard Huelsenbeck apresentaram em 1916 uma disputa entre a máquina de escrever e a máquina de costura. Ao final, a máquina de costura vence e Hausmann, indignado, lança violentamente sua máquina de escrever ao chão. Pois eu escrevia para derrotar o silêncio. Costurava frases para fazer o sangue circular pelo corpo e esquentar novamente meus pés. Tinha que abater a ansiedade antes que ela me impusesse um nocaute. Acordava pela manhã com o corpo desajeitado sobre a cama, o celular escorregando das mãos e o bloco de notas aberto.


Em duas ocasiões, nessas manhãs em que despertava de olhos vermelhos, estranhei meu texto. Li aquelas linhas como quem recebe uma carta anônima. Não era ruim, nem brilhava também. Apenas um amontoado de frases alienígenas, distantes das coisas que vivia. Não me pertencia. Aqui ou ali sobrava uma vírgula ou faltava um nexo. Mas em algum canto de um verso, numa imagem remota da madrugada, o texto reivindicava minha paternidade. Percebi que a experiência da escrita noturna me empurrava para uma zona limítrofe. Um lusco-fusco de consciência, em meio à busca extenuante de uma atenção ruidosa, acelerada, que me isolasse da calma gélida da noite. Me dava barato. Uma sensação paradoxal de hiperfoco e, ao mesmo tempo, vertigem de um escrever intenso e veloz, no qual me viciava. Sem indução química ou álcool, caro amigo, posso lhe garantir. Como aquela estranha mistura de ansiedade, silêncio, calafrio nos pés, uma cabeça delirantemente atenta, dedos impacientes e uma tela, me conduziu a essa experiência incomum, não sei exatamente. Escrevia como quem fugia, correndo em alta velocidade, mas me equilibrando sobre uma corda a beira do precipício.


No livro Alucinógenos e Cultura, o antropólogo Peter Furst afirma que o foco excessivo pode se desdobrar em alteração da consciência. É um recurso para obstrução da dor, como na cultura maia, ou para atingir uma atenção total do corpo, no caso dos derviches rodopiantes da Turquia. Pois havia algo de febril e rodopiante ao escrever. Era excitação pura, como se nenhum neurônio fosse poupado. Outra manhã sucedeu como aquela, com a mesma ressaca cognitiva, além da amnésia que me sobreveio, inclemente. A cabeça formigava. Então abria a tela do celular para ler aquele estranho tão familiar…


Essas noites febris foram meu refúgio diante do silêncio. Mas elas se foram. Semanas atrás, adormeci à tarde no sofá da sala e acordei na escuridão. Não ouvia barulho algum. Meu coração não palpitava e corria sangue meus calcanhares. Nunca mais precisei fugir com um saco de palavras e a faca entre os dentes. Melhor assim, talvez. Talvez.


Dada siegt, por Raoul Hausmann

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