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Quietude, mastigando lentamente o tempo

Atualizado: 20 de jul. de 2023

Não me recordo exatamente o ano. Entre 87 e 89, seguramente. Era adolescente e estava num desses acampamentos de igreja nos arredores de Londrina. No refeitório, a longa fila do almoço testava a paciência dos jovens famintos. Lancei sobre o prato uma montanha de arroz e feijão e lasquei um bife, já me perguntando em que lugar me sentaria naquele salão lotado. Consegui uma vaga apertada num banco e fiquei espremido entre desconhecidos. Logo à minha frente, um gringo, cara típica de wasp (white, anglo-saxon and protestant), mais velho, com um bigodinho que fazia sucesso entre atores de filme b norte-americanos dos anos 80. O sujeito garfava ligeiro a comida, mastigava feito louco, engolia, enquanto cortava outro pedaço de carne e limparia seu prato quando eu mal havia tocado em minha comida. Daí, com sotaque bem carregado, perorou sobre as vantagens de comer rapidamente. “Não perco tempo nas refeições”. Em seguida, se pôs a explicar – rapidamente, óbvio – que 4 ou 5 minutos eram mais que suficientes, sobrando-lhe mais horas do dia para tarefas produtivas. Revelou quantas vezes mastigava a comida - não eram poucas -, mas o segredo era a velocidade. Pediu licença, levantou-se e saiu satisfeito ao seu modo. Perguntei ao rapaz ao lado de quem se tratava. “É o cara que cuida do acampamento”, disse. Ok, fazia sentido a pressa. Ou não.

Desde que Benjamin Franklin proferiu que “time is money”, ninguém tem mais o direito de comer em paz. Toda a arquitetura do mundo do trabalho, agora piorada em sua versão digital multitarefa, baseia-se neste princípio de que o tempo nunca é suficiente. Precisamos multiplicá-lo em diversas telas. Desconfio que a nova obsessão do mundo ficcional pelos multiversos tem a ver com esse sonho de superar o espaço físico em benefício do tempo, ou melhor, dos vários tempos, porque um só não parece não dar conta de nossas vidas. Não surpreende constatar que mais este demônio veio do norte, da terra que promove concursos de quem come tantos cachorros quentes em poucos minutos.

Meu filho fere essa lógica. Ele e alguns que conheço, felizmente. O garoto tem 19 anos e, em matéria de refeições, é um ser ruminante. Um almoço não lhe toma menos que uma hora, entremeando mastigadas, conversas leves e risadas. O que irrita, claramente, minha filha, de 15 anos, uma agitada adolescente. Ele nem liga e faz galhofa da reclamação da irmã. Almoçar é seu jeito de experimentar o tempo como processo, algo muito raro hoje. Comer sem telas, experimentando o lento mover dos talheres, ruminando conversa mole, é sua maneira de vivenciar o meio do dia, subvertendo a velocidade do nosso mundo.

O gringo do bigodinho e meu filho são um par antitético no quesito almoço. Perante o método e a mastigação racional do norte-americano, meu filho é o próprio Macunaíma. Lembrei-me disso depois que li uma epígrafe de um trabalho de conclusão de curso: “Numa era de velocidade, nada é mais revigorante quanto ir devagar”. O autor é Pico Iyer, ensaísta britânico que escreveu “The art of stillness”, algo como “a arte de se aquietar”, em tradução livre.

Semana passada, desdobrei-me entre aulas e bancas de trabalho de conclusão de curso. Não suportei o ritmo e adoeci. Resolvi, mesmo fragilizado pela sinusite, refazer as pazes com as horas do dia. Desci a rua rumo ao mercado, comprei alguns legumes, abobrinha, cenoura, tomate, pimentão, cebola... piquei em minúsculos pedaços um a um os ingredientes, sem a pressa habitual dos dias da semana. Fritei a cebola e refoguei o resto. Preparei uma massa, esta semipronta, mas decidi curtir cada etapa do fazimento de um molho branco à base de maisena e de queijos que envelheciam na geladeira, acrescido dos legumes refogados. Reconciliar-me com o tempo, vivido no lento vagar, me permitiu respirar, como se estivesse debruçado sobre o peitoril de uma janela, contemplando o silêncio. Minha resposta ao tempo devorador seria submetê-lo a uma lenta mastigação. Depois de tudo pronto, coloquei uma pequena porção do ravioli no prato, peguei meu celular e acomodei-me no sofá. Comi devagar, movendo mansamente os talheres, saboreando quietamente as nuanças que cada legume deixava no molho, enquanto participava de uma reunião de trabalho no google meet. Com a câmera fechada, por supuesto.

Saturno devorando um de seus filhos, de Francisco de Goya

1 comentário


Silvio Demétrio
Silvio Demétrio
20 de jul. de 2023

Cara, do balacobaco o casamento da ilustração com o texto.

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