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Pedras que emergem das águas

Certas lembranças retornam como uma pedrada na cabeça. São imagens longínquas, esmaecidas pelo tempo, que subitamente adquirem força e reaparecem como um golpe de vento forte, em ocasiões incertas. A memória que me assaltou era uma pedra mesmo (nada de metáforas), lançada rente às águas de um lago, e veio em sonho. Desconfie de quem usurpa das pedras para reduzi-las à imagem dos infortúnios, de obstáculos, angústias, o que for. Às vezes, elas estão no meio do caminho apenas esperando que você as apanhe para depois arremessá-las no fundo de um rio. A única questão é saber como vê-las. Sonhei, pouco antes de acordar, com a pedra, que não era qualquer uma. Era um seixo. Ele aparecia como um disco achatado, que acomodei perfeitamente no arco que se forma entre a ponta do meu indicador e o polegar. Arqueei meu corpo, como se pudesse apenas em sonho, para um lançamento perfeito.


Assim que me levantei, fui ao banheiro e notei que minha cicatriz na têmpora esquerda estava mais visível que nunca. Quando tinha uns dez anos tropecei enquanto corria e abracei uma coluna de seixos. Cinco pontos. Nos anos 80, não era raro encontrar colunas de portões revestidas com essas pedras. Hoje me dei conta que os seixos pontilharam minha infância. E sua presença está atada às minhas recordações no sítio de meu avô em Tupi Paulista, oeste do Estado de São Paulo. A terra rosada daqueles poucos alqueires era forrada por esses fragmentos rochosos, que a gente chamava de pedregulho. É um tipo de pedra com formatos diversos. Algumas são círculos quase perfeitos; outras, sólidos irregulares de arestas suaves. Umas foscas, de um beje prosaico; outras, transparentes, lindas, que imaginávamos possuírem um bom valor. Já passei algumas tardes com meus primos, procurando exemplares raros, como se fossem diamantes. Depois, os espalhávamos na varanda para eleger os mais belos. Algumas pedras tinham tons chamativos de verde ou marrom, com um brilho único, como se tivessem recebido uma demão de verniz. São facilmente encontradas às margens de rios, o que me leva a imaginar que aquela baixada, em que localiza a propriedade, já tenha sido coberta por águas. Meus pés descalços conheciam bem a superfície dessas pedras. Meu calcanhar já queimou sobre os discos mais largos no sol escaldante. Meu dedinho sangrou ao topar com seixos incrustados na terra. Minha havaiana soltou as tiras quando errei a pisada sobre um seixo. Desde criança, era meu modelo imaginário da pedra. Mais que isso, os seixos faziam parte do vínculo entre meu corpo e o solo do lugar que mais amava.


No meu sonho, eu era criança. Estava ao lado do meu pai, à beira de um lago. Abracei a pedra com o indicador e o polegar. Flexionei meu braço e atirei o pequeno disco, que girou em alta velocidade, próximo à superfície das águas. A pedra rebateu três vezes no espelho e depois submergiu em minha alma. Tive que mergulhar fundo em mim mesmo para vê-la novamente.


No banheiro, diante do meu reflexo, a cicatriz na têmpora ainda é branda, mesmo com a pele mais flácida. Ela fica mais nítida quando sorrio e os olhos se contraem.

Rocks, de Christopher Clark


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