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O Gênesis, Lilith e o bug do algoritmo (fundamentalistas parte 2)

Eu acreditava ter os olhos bem abertos quando, adolescente, li a bíblia inteira. Não era exatamente um rapaz religioso. Estava longe de ser o estereótipo do crente, aquele que anda com o livro da capa preta debaixo do braço. Mas, quando fiz 14 anos, me senti impelido a tomar um fôlego e zarpar do princípio da criação rumo às estranhas visões de João na ilha de Patmos. No fundo, era movido mais pela curiosidade do que pela fé. Me considerava um bom leitor e vivia rodeado de livros. Minha habilidade em interpretar textos, contudo, foi atropelada por um certo sonambulismo já nas duas primeiras páginas.


Releio hoje os dois primeiros capítulos do Gênesis e me dou conta de que qualquer garoto de 14 anos, que não tenha os olhos enviesados pela fé, mesmo no lusco-fusco de um precário estado de vigília, notaria um enorme caroço no angu. Numa única página – o leitor não precisa caminhar muito – há dois relatos da criação. Distintos; até contraditórios. No primeiro, a humanidade é a cereja do bolo, a última coisa a ser criada, antes de deus descansar no sétimo dia. Já no segundo, logo de cara, o criador faz o homem antes de brotar a erva do campo. As duas histórias se estranham. Em Gênesis 1, Eloim faz homem e mulher num mesmo passe de mágica, do mesmo barro. No segundo capítulo, Adão é criado, primeiramente, do pó da terra, e, depois de nomear todas as criaturas do jardim, é colocado num sono profundo para deus lhe tomar uma das costelas e dela formar a mulher.


Me espanto com a leitura caolha de minha adolescência. Mas me surpreendo mais com o fato de muitos crentes fazerem de conta que a história é só uma, ignorando suas contradições. Os mais radicais não desprezam uma vírgula. São severos vigilantes dos textos sagrados e observadores de minúcias. Seus filhos geralmente carregam nomes de personagens bíblicos secundários, como Melquisedeque, Uzias ou Asafe. Um verdadeiro castigo hereditário. Tais escolhas são a prova de que leram a bíblia toda, até o rodapé. E exibem isso com orgulho. Para eles, a premissa da inerrância das escrituras lhes precede a própria inteligência. E, por isso, sua leitura será invariavelmente obtusa ou desonesta.


Fato é que os dois primeiros capítulos foram justapostos num dado momento histórico e, aparentemente, não havia intenção alguma do autor/editor em eliminar as diferenças ou suavizar as arestas. Tenho a impressão de que um bot de IA escreveria um texto narrativo menos incoerente que o Gênesis. É como se o mito judaico da criação tivesse um bug no algoritmo, deixando rebarbas, furos e divergências à mostra. A história não é bem resolvida, e, ao que tudo indica, não foi concebida para sê-lo. Falta-lhe nexo. No segundo relato, o editor deixou escapar uma palavra que altera o ritmo da leitura e expõe o erro algorítmico. É hapa’am, que significa, do hebraico, “agora”. Quando Eva é apresentada a Adão, este diz “Esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne...”.


“Agora”, advérbio de tempo, é uma palavra que se torna saliente no contexto da história. Mesmo a quem tenta forçar a unificação dos textos, acaba esbarrando na palavra. Ela pressupõe que, definitivamente, Eva não é a primeira mulher. “Agora” é a perna esticada que faz o leitor tropeçar e o precipita num abismo de névoas. Pois é justamente desta fenda textual que vai irromper com força a figura de Lilith. Ela é imagem que vaga, além da fixidez dos textos, por tradições e culturas, muito antes do Gênesis ser escrito. E mesmo ali, tendo já viajado pela mesopotâmia, projeta, como fantasmagoria, sua sombra de mulher insubmissa, que encobre Adão para lhe extrair prazer. Talvez seja imprudente atestar que Lilith seja a mulher de Gen 1, como diria, muitos séculos depois, o Alfabeto de Ben-Sirá. Os textos antigos têm camadas subterrâneas que dificilmente virão à luz. Mas acho muito interessante como uma palavrinha (“agora”) fornece ocasião para que uma outra história seja lida nas entrelinhas.


O que me fascina no Gênesis é que as incoerências não derivam de uma falha tectônica. Se assim fosse, bastaria remontar uma unidade original, reconstituindo artificialmente os pontos de encaixe. Gênesis não é uma tela harmoniosa que foi rasgada em pedaços. Pelo contrário, é colcha de retalhos, costurada com pontos largos e linha frágil, cheia de buracos, dos quais brotam imagens ocultas, que possuem histórias incertas. Se o mito fosse reescrito pela IA, tudo estaria tão amarradinho que Lilith seria sufocada, para o deleite dos fundamentalistas.

Lady-Lilith, de Dante Gabriel Rosseti

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