O corpo da voz e reminiscências de um beijo que não existiu
- Alberto Carlos Augusto Klein
- 11 de jul. de 2023
- 3 min de leitura
Era toda uma sintaxe que precedia o beijo. E seria fora de ocasião, sem lugar ou contexto algum que o favorecesse. Teria que tocar o foda-se. Mudara-me havia pouco para São Paulo e me virava dando aulas de inglês numa escola. No restaurante, cinco ou seis professores e ela, secretária, sentada ao meu lado, caminhando para o fim de sua terceira ou quarta taça de vinho, que já deixava sua voz gostosamente molhada e levemente rouca. O vinho a fazia perder as inibições na mesma medida em que aguçava minha pele. Ela parecia saber disso quando se aproximou de meu ouvido e sussurrou, mole, qualquer inconfidência. Depois riu, liberando um calor de sua boca que me atiçou os poros. Não me recordo bem de seu rosto, do que vestia, do seu olhar, mas consigo evocar perfeitamente sua voz alcoolizada, seu timbre, a risada desajeitada, o sopro quente ao meu ouvido, a vibração de pele. Era esse o tal do encadeamento sensório que me encorajava a girar instintivamente minha cabeça para encontrar a sua boca. Não o fiz, por recato, timidez ou medo de uma recusa. No dia seguinte, ela estava toda comportada na escola e me receberia com um bom dia sem cumplicidade alguma.
Não tenho um registro qualquer dessa garota, nem fotografia de toda a galera da escola posando naquela noite... de repente, ela poderia estar no meio. Nada. Por isso, a imagem da garota é uma fisionomia pálida, um rosto na neblina da memória. Não sua voz trôpega e ao mesmo tempo suave; ela é nítida, no seu lento vagar. Minha lembrança lhe dá uma clara representação. Uma reapresentação, na verdade. A circunstância etílica confere à voz da garota uma fisionomia única, envolta no calor de um sussurro ao ouvido, uma presença. Acho estranho que a moça signifique, em minha vida, nada além de sopro, som e pele, materialidades condensadas num instante. Este episódio ainda ressoa quando leio ou ouço alguma história sobre a voz em contextos distintos. Em geral, situações que reafirmam a capacidade da voz em instaurar presenças.
McLuhan nos lembra, em sua Galáxia de Gutenberg, que voz é matéria. Não se trata de figura de linguagem. O som ocorre através de ondas que se chocam literalmente contra o corpo de quem ouve. A audição é um fenômeno tátil. Para quem está perto, a voz é mais que som; é sopro e calor, cheiro, iminência de beijo, inconfidência ou empurrão. É forma embebida de afetos. Por isso, penso que fixar a palavra em texto, inevitavelmente, significa despi-la de seu corpo, de seu calor, de suas rugosidades e seus tropeços, de sua melodia e seu dançar, ainda que a escrita a reanime à sua maneira. De todo modo, em algum grau, os textos representam um esmaecer do mundo. Vilém Flusser fala de algo como uma escalada de abstrações. O foco dele era a imagem, mas talvez, com um pouco de indisciplina, posso partir da voz. A cada mudança tecnológica, vamos subtraindo o mundo, em sua materialidade, das formas de linguagem, até que nos reste somente a informação pura. Como se sacrificássemos uma parte do corpo em cada salto.
Na religião dos antigos hebreus, um dos pilares culturais para entendermos a nossa civilização, a experiência de deus é basicamente atravessada por textos, que distanciam o corpo do rito. Mas mesmo Javé, cujo nome era impronunciável – somente o sumo sacerdote sabia dizê-lo – animava os profetas com o vibrar de sua voz. Deus se desprende das escrituras para se presentificar aos profetas como voz. No Cristianismo, Javé se torna verbo encarnado num filho, devorado ritualmente aos domingos. E não há nada tão radical quanto devorar o corpo de um deus. No novo testamento, espírito de deus também é descrito como vento que desceu sobre os discípulos no pentecoste, na forma de línguas de fogo. “De repente, veio do céu um ruído, como que de um vento impetuoso...” Não quero trazer questões teológicas aqui. Não é o caso. Debruço-me sobre a bíblia com o mesmo interesse que recito assim falou Zaratustra ou leio Moby Dick. Mas acho bonito quando Javé compreende que o texto não lhe basta nem o detém. A síntese está aí: voz, som, vento, verbo... deus é voz revestida de um corpo.
Naquela noite, no restaurante, a sintaxe era a mesma: voz, som, sopro, verbo, pele... um beijo também, que não existiu.

Careless Whisper, de Terence Rogers

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