Não há como perder as insígnias em Serra da Saudade, nem em lugar algum
- Alberto Carlos Augusto Klein
- 29 de jun. de 2023
- 3 min de leitura
Ontem, ao final da manhã, li a triste notícia de que Borá perdeu o título de menor cidade do Brasil. Foi “superada”, nesta espécie de competição às avessas, por Serra da Saudade, que, segundo o Censo 2022, possui 833 habitantes. Borá, com 903 , vai ter que se desfazer de 10% de seu povo até 2030 se quiser retomar o glorioso título. Tenho uma razão pessoal para torcer por Borá. É o mesmo nome de uma ilha fantasiosa em que se passa uma história que inventei. Do Tupi, Borá designa o som produzido quando se sopra no vácuo de duas mãos unidas em forma de cunha. Uma outra versão dá conta de que Borá também quer dizer o centro, o âmago de tudo. Enquanto escrevia a história, tomei conhecimento de que o lugar não só existia como também possuía esta peculiaridade de ser o município menos populoso do Brasil.
À tarde ouvi no rádio uma pequena reportagem sobre como era viver em Serra da Saudade, cujos moradores comemoraram a novidade. Tenho a sensação de que a cultura “do maior, do mais forte e do melhor” está se fraturando. Talvez porque dá muito trabalho ser tudo isso. Sinto no ar uma desconfiança generalizada com os coaches, pregadores da superação e da prosperidade financeira. Apegar-se à simplicidade das coisas e “achar” a zona de conforto – e jamais sair dela – parece se colocar como o horizonte de muitos brasileiros que sonham com uma vida sem sobressaltos. Isso reflete provavelmente o processo de interiorização do Brasil, detectado neste senso. Não foi apenas Serra da Saudade que encolheu. Com ela foram oito capitais, incluindo o Rio.
Mas não era disso que queria tratar. Na pequena reportagem sobre a singela Serra da Saudade não tinha como sair muito daquela imagem idílica e clichê da comunidade perfeita. “Todos se conhecem muito bem”, “Todos se ajudam”, “todos são vizinhos”, “na escola, os professores são nossos amigos”, “a cidade é como uma família”. Foram mais ou menos essas falas que se destacavam na matéria. Os não ditos das falas me mostram uma cidade aterrorizante, pelo menos para mim. Não conseguiria viver em um lugarejo em que todos são próximos. Sou professor e preferiria não conhecer os pais de todos os meus alunos, muito menos eles se sentiriam confortáveis em saber que já namorei a mãe de um ou joguei bola com o pai de outro e coisa e tal.
As pequenas cidades me evocam os filmes de terror B norte-americanos. Personagens como Jason eclodem em ambientes comunitários, em que todos se conhecem: o xerife, a diretora da escola, a bibliotecária, o farmacêutico, o dono do pub, o valentão, as cheerleaders... Há uma claustrofobia nesses ambientes. Não dá pra enfiar o pé na jaca e passar incólume. Lembro-me do poema “A perda da auréola”, de Baudelaire. O poeta, que viveu o choque das transformações urbanísticas de Paris no século XIX, relatava a experiência de “perder as insígnias” e poder fazer coisas baixas no anonimato da grande cidade. Não sou de coisas baixas, mas ficaria ressabiado em levar minhas receitas médicas ao cara da farmácia que é fatalmente meu vizinho ou quase. Não é legal quando todos na rua identificam o barulho do motor de seu carro e sabem que você está chegando em casa num horário incomum no meio da madrugada. Enfim...
Antes que um morador de Serra da Saudade proteste contra minhas desconfianças sobre viver numa pequena comunidade, confesso que não me incomodo tanto quanto deveria com outra forma de vigilância, a da internet. Esta muito mais cruel do que os olhos encarnados dos vizinhos hipotéticos das cidadezinhas do interior. Talvez porque o olho digital seja descarnado. Emula uma ausência . É invisível. Quando me ocupava de Borá e seus habitantes ficcionais, fiz uma pesquisa na internet sobre tipos de veneno que matam rapidamente sem deixar muitos rastros no corpo. Era algo importante para a trama. Tive o cuidado de abrir uma janela anônima no navegador. Mesmo assim me senti rastreado. Alguém invisível poderia me tomar por um potencial assassino. Um agente da PF a me espiar, ou um hacker curioso, sentado em sua confortável poltrona de gamer, em seu quarto escuro na bucólica Borá.

Serra da Saudade, imagem gerada pelo Google Earth

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