Moisés e as bolhas nos dedos
- Alberto Carlos Augusto Klein
- 23 de mai. de 2023
- 2 min de leitura
Atualizado: 8 de jun. de 2023
De vez em quando leio a bíblia. Hoje li o Êxodo e pensei, no meu íntimo, com toda honestidade, que não ia aguentar muito tempo naquela reunião tete a tete com Javé no Monte Sinai. Desculpe aí a blasfêmia. Estou consciente do risco, mas, pô!, convenhamos.
Imagine a cena. Moisés, lá no monte, depois de anotar os dez mandamentos e todos os incisos e parágrafos que vieram na sequência, chacoalhava as mãos com os dedos dormentes numa breve pausa. Detalhe: o cara não dispunha de uma esferográfica, mas provavelmente um formão ou algo do gênero, uma vez que escrevia sobre tábuas de pedra. Ok, ok, os bibliólatras dirão que deus entregou tudo rabiscadinho, poupando o profeta de tal serviço. Na verdade, imagino que não, pois não faria sentido toda aquela peroração interminável. No final das contas, é tudo ficção, lá na bíblia ou aqui.
Voltemos à cena. Não estava fácil. A testa suada do hebreu pingava sobre a pedra. Mas Javé, indiferente ao cansaço de seu interlocutor, afinal estava de costas, disparou uma série de instruções sobre como fazer a arca que guardaria as tábuas sagradas. E ela seria repleta de penduricalhos para o desespero do escrevinhador. Mesmo exausto, o profeta martelava, martelava, sem murmurar.
Lá pelas tantas, já com bolhas no indicador e quase pedindo clemência, Moisés mal pôde acreditar quando Javé desatou a falar em arquitetura e decoração. Detalhes e mais detalhes do tabernáculo a ser construído, com especificações sobre colunas, suas medidas, o tecido das cortinas, etc. Dá-lhe mais marteladas…
Finalmente uma pausa. Moisés, que nem sentia mais as mãos, imaginou que o martírio acabaria. Javé, contudo, retomou o fôlego e iniciou um novo ponto de pauta: o figurino do sacerdote. E tratou do assunto com o ânimo de um Ronaldo Esper. Ombreiras, fio de ouro, argolas... “Como pode o Senhor se fixar em tantas minúcias?”, pensou o profeta. Mas não era ele afinal também o criador das coisas pequenas, delicadas e frágeis, como as rosas e o grão de mostarda?
Na moral, Deus queria se exibir, mostrar seu conhecimento sobre tudo que existia: leis, arquitetura, decoração, design, moda... Era o cara, afinal. A onisciência era um atributo de exclusividade sua. Mas, de costas, não pôde ver as mãos inchadas e as bolhas nos dedos daquele homem precocemente envelhecido.
De repente, o som das marteladas cessou. Moisés pousou a pedra e o formão no chão delicadamente e desceu o monte com a firme intenção de conversar com o Faraó. Talvez fosse melhor ficar no Egito e negociar uma permanência mais justa. De costas, mergulhado em suas próprias palavras, Javé nem se tocou.


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Moral da história: não das as costas p quem escreve.
Grande Beto! Parabéns!