Lembranças sob a epiderme, a tatuagem que esqueci e o extrato que mancha a vida
- Alberto Carlos Augusto Klein
- 4 de jul. de 2023
- 4 min de leitura
Em uma ocasião indeterminada, em um bar qualquer, uma mulher, cujo nome não me lembro, falava a todos da mesa sobre a eficácia do tratamento de hipnose a que se submetera. O objetivo, plenamente alcançado segundo ela, era extrair algumas memórias indesejáveis de um casamento malsucedido. Não abri minha boca, embora quisesse contestar. Percebi que me faltaria argumentos diante de alguém a dizer que as lembranças são dela - e não minhas - e ela as esquece quando assim lhe aprouver. O cara ao seu lado, desconfiado tanto quanto eu, deu uma risada indiscreta e indicou-lhe o filme que já me fazia cócegas na língua: “Você é a prova de que brilho eterno de uma mente sem lembranças é algo possível”. Ela ficou no ar um tempo até o cara lhe contar a história de um sujeito, que recorre a um procedimento científico inovador a fim de deletar todas as memórias de sua ex-namorada, por quem ainda sofria. “É mais ou menos isso”, ela retrucou. “Não vou me esquecer dele, obviamente. Mas esqueci algumas coisas que me faziam mal”. O que me inquietava não era a possibilidade em si de arrancar cirurgicamente memórias, mas sim o desejo de subtrair reminiscências, por piores que fossem, que levam a pessoa a ser o que é hoje.
Isso aconteceu já faz um bom tempo e o que ela relatou à mesa ainda ecoa. Pensei nas memórias ruins que deixariam de reverberar na minha cabeça se fizesse o mesmo que ela. Não quero. Tais memórias me constituem e me ajudam nesse processo eterno de decifração de mim mesmo. São porradas, quedas, pisões, caneladas... que marcaram meu corpo e provocaram lesões que me deixaram manco de alguns sentimentos. Contudo, são recordações que hoje me explicam, além de provarem que sinto dor de vida. Eu faço questão das más lembranças das coisas que fiz ou que me fizeram. Não por arrependimento ou vingança, mas para não me queimar com óleo quente duas vezes. Numa dimensão coletiva, assim fez a Alemanha, que diariamente lembra a suas crianças na escola o horror do Terceiro Reich. Nunca esquecer. O que, numa direção contrária, não significa desejar se lembrar obsessivamente de tudo. Óbvio que não gostaria – e nem poderia - ser Funes, personagem de Borges, condenado a registrar tudo que vê e experimenta, cada sensação e estímulo, tudo infinitamente memorizado, incapaz de esquecer uma fagulha de imagem ou uma molécula que cheira. O essencial vou levar eternamente sob a minha pele, como o silêncio que experimento à noite depois que passei a morar só, longe de meus filhos. Outras tormentas, porém, o tempo haverá de amainar, até serem lançadas no poço do esquecimento.
Há uns dez anos tomei uns medicamentos pesados que me provocavam amnésias esporádicas. Apaguei experiências que não deveria. Naqueles dias, depois de uma aula, a Marcia, que era minha monitora, aproximou-se e disse em voz baixa: “Professor, é a terceira vez que você dá a mesma aula”. Fiquei muito chateado e lhe perguntei por que ela não havia me interrompido. “Ah, uma aula nunca é a mesma coisa né!”, retrucou e riu. De fato, não é. Sempre me empolgo e saio do script. Assim mesmo era uma saia justa. Outras marcas do tempo dissipam-se lentamente. Esqueço-me por vezes que tenho uma tatuagem no corpo. Não a vejo. E seu motivo tornou-se insignificante para mim com o passar dos anos. Só consigo vê-la se me contorcer diante do espelho, o que não vale o esforço. Os detalhes do desenho vão se desfazendo de minha memória. A tatuagem não me importa mais. Ela não tem a força de tantas outras experiências que trago coladas na retina: noites de amor, viagens, cartas que li e escrevi, risadas, arrebatamentos poéticos, ondas que pulei com minha filha, suas primeiras pedaladas sem rodinhas, o primeiro gol que levei do meu filho, ou quando ele ouviu pela primeira vez like a rolling stone do Bob Dylan. Vou carregar esses momentos sob a epiderme como tatuagens vivas.
Quando tinha 10 ou 11 anos, eu e meus primos fizemos uma colheita de nozes pecã no sítio de meu avô. As árvores eram muito altas e precisávamos cutucar com bastante força seus galhos com o auxílio de uma vara. As nozes que se espalhavam pelo chão eram envolvidas por uma cápsula seca semiaberta. Algumas permaneciam mais verdes e exigiam paciência para retirá-las. Quando as abríamos com os dedos, liberavam um caldo escuro deixando toda a palma da mão impregnada de um marrom. As manchas não saíam com água e sabão e ficavam semanas na pele. Fui para escola com aquelas mãos assustadoras. Pensei que ia conviver eternamente com o extrato de pecã na pele, até que um dia lavei as mãos com querosene e, assim mesmo, as manchas só saíram sob protesto. Este episódio me veio à mente naquela mesma noite em que a mulher do bar falava de seu tratamento. E eu sabia exatamente por quê. Memórias entranham na pele. Pouco importa se boas ou ruins, elas hão de manchar a vida. Com querosene, inflamam.

Kate Winslet e Jim Carrey em Brilho eterno de uma mente sem lembranças, de Michel Gondry (EUA, 2004)

![gorgonzola-[Recovered].png](https://static.wixstatic.com/media/b5bc38_9ce52f5d276840f68ec10ce28652fcb2~mv2.png/v1/fill/w_260,h_229,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/gorgonzola-%5BRecovered%5D.png)



Comentários