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Fundamentalistas parte 1: e se Jonas tivesse engolido a baleia?

Uma figura marcante de minha infância foi uma professora de escola dominical chamada Ercília. Lá em início dos anos 80, talvez ela tivesse menos de 40, mas sua jovialidade havia se evaporado e dado lugar a uma senhora circunspecta, puritana, de alma incorruptível e rígida disciplina religiosa. Orgulhava-se de ser esposa de um missionário e, não raras vezes, gabava-se da severa educação cristã de seus três filhos, que sabiam de cor centenas de versículos bíblicos. As nítidas marcas de expressão na face – provavelmente dos difíceis anos em campo missionário no Amazonas - e a sobriedade casta dos vestidos monocromáticos lhe conferiam uma aparência envelhecida, de rosto sério e lábios duros, dos quais fluía uma voz amarga.


Eu tinha 8 ou 9 anos quando, numa manhã de domingo na igreja, depois que Ercília narrou em pormenores a desobediência, os infortúnios e o arrependimento de Jonas, pediu aos seus alunos que fizessem um desenho sobre a história. Eu, que à época tinha mais aptidão que hoje para as artes figurativas, fiz uma linda baleia com um homúnculo dentro dela, deixando o bicho totalmente transparente, a fim de ilustrar o confinamento de Jonas. Ercília tomou minha folha, examinou minha arte cuidadosamente, com seus óculos escorregando para a ponta do nariz, e sentenciou:


“Tá errado”.

“O que?”, perguntei.

“Você desenhou uma baleia”.

“Sim”.

“Jonas foi engolido por um grande peixe, não uma baleia”.


Abriu então a bíblia e leu a passagem exata para comprovar sua afirmação. Àquela altura da minha vida, estranhei uma baleia não ser um peixe.


“Baleia não é peixe, é um mamífero”, disse ela depois de fechar o livro sagrado.


A precisão científica da explicação da professora me fez imaginar um lambari gigantesco. Era o meu modelo arquetípico do que seria um peixe. Será que um ser assim poderia existir? Jonas teria ficado bem desconfortável, até porque os lambaris têm uma compleição corporal estreita, o que o deixaria meio espremido entre os espinhos. Que castigo! As baleias, por outro lado, são como dutos espaçosos por dentro, um verdadeiro salão de festas, podendo acomodar um bom número de convidados.


Recordei este episódio enquanto lia Moby Dick, de Herman Melville, publicado em 1851. Carl Linnaeus, cem anos antes, havia estabelecido sua taxonomia dos seres vivos, afirmando claramente que baleia não é peixe. Melville cita o naturalista sueco e mostra como sua classificação era ainda discutível, enquanto escrevia seu belo romance. Muitos ainda se aferravam a critérios que mantinham os cetáceos (baleias) no mesmo balaio que outros peixes.


Mas o que me chama a atenção é que o autor do livro de Jonas, há mais ou menos uns 400 anos antes de Cristo, já havia se antecipado a Linnaeus nessa taxonomia dos seres marinhos. E a presbiterianíssima Ercília, em sua fé inabalável na inerrância bíblica, acomodava, à sua maneira, as verdades científicas em suas crenças. Seu mundo ainda era cheio de acontecimentos e seres cientificamente nada plausíveis, como anjos alados, serpentes e mulas falantes, mares que se abriam e barcos que abrigavam todas as espécies de animais. Se a bíblia lhe dissesse que Jonas engolira uma baleia, isto lhe seria fato histórico incontestável, que qualquer ciência seria incapaz de desmentir. Mas Ercília não estava sozinha. Junto a ela, quase todos os crentes que ainda hoje ignoram gêneros literários e figuras de linguagem. Na verdade, retomando a história do nosso personagem bíblico, todo mundo sabe que tinha que ser uma baleia, convenhamos! Na verdade, mesmo, caro leitor, cá entre nós, nunca teve baleia a hospedar um Jonas dentro dela, nem mesmo houve um Jonas. Foi tudo ficção, sinto dizer-lhe, o que não deixa a história menos bela.

Ilustração em guache encontrada em um manuscrito persa do século 14. Como se vê, trata-se de um peixe, só para contrariar minhas convicções.

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