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Banco, livros e prato de lentilhas

Hamburgo, Alemanha, 1879, num casarão do velho distrito de Altona. Não se sabe exatamente a data, mas se você se considera um sujeito sensato provavelmente dirá que o contrato estabelecido naquele dia foi produto da loucura e da estupidez.

A cena deve ter sido mais ou menos assim: Aby, um garoto de 13 anos, viciado em livros, vivia a crise da adolescência em sua plenitude. Havia brigado com meio mundo sobre sua futura formação. Sua avó o queria rabino. Seus pais, médico ou advogado. Mas o rebento mais velho dos Warburg, em sua rebeldia, só queria fazer artes. Naquela manhã, o sol não deu as caras. O garoto, enfezado, após uma longa noite de discussão com a mãe, levantou-se mais cedo do que de costume e dirigiu-se ao quarto do irmão Max, um ano mais novo. Depois, tomaria café e seguiria para a escola. “Tenho uma proposta para você”, disse Aby. Max, ainda de pijamas e remela nos olhos, só escutou. Depois desceria para o café da manhã tentando disfarçar a súbita alegria.

Aby era o primogênito entre sete irmãos de uma rica família judaica e, portanto, detinha o direito exclusivo de herdar o banco Warburg que pertencia ao seu pai, Moritz. Max mal pôde acreditar quando Aby o olhou atentamente nos olhos e disse: “Eu posso dar a você o direito de ficar com o banco desde que...”. Então Aby aproximou-se a um palmo do nariz do irmão e continuou: “...desde que você compre todos os livros que eu pedir durante toda a minha vida”. Os dois moleques, talvez sem saber, recuperavam a mítica passagem bíblica da venda do direito de primogenitura de Esaú a Jacó, a preço de um prato de lentilhas. “Não era exatamente um prato de lentilhas”, revelou Max, depois de velho e dono de um banco inteirinho. Ou era?

Talvez a cena não tenha sido exatamente assim. A manhã poderia estar ensolarada – algo raro em Hamburgo – ou a conversa tenha sido após o café da manhã. O fato é que o contrato foi levado a efeito e aquele dia tornou-se decisivo não apenas para o futuro dos dois garotos, mas – se é para falar da parte que me interessa – para o surgimento de todo um campo de estudos da imagem denominado iconologia, do qual Aby Warburg é o grande inspirador. E foi em seu percurso como estudioso das imagens que ele foi comprando livros e mais livros, acumulando obras singulares, documentos históricos raros, a ponto de presentear a cultura com uma das bibliotecas mais instigantes que já se conheceu. Aby decidiu transgredir o espírito de organização dos bibliotecários e dispôs os títulos segundo a lei da boa vizinhança. Ele acreditava que um tratado de Astrologia poderia conversar com um livro de Lógica, ou um de Matemática com outro de Alquimia. Em 1926, três anos antes da morte de seu fundador, a biblioteca passou a funcionar como um instituto público de pesquisa vinculado à Universidade de Hamburgo.

Aby morreu em 1929, com 63 anos, dois dias depois do crack da Bolsa de Nova York. Viveu as tormentas da esquizofrenia. Sabia viver e decifrar as sombras, trajetos e raízes das imagens ao mesmo tempo em que era assombrado por elas. Max ficou com o banco até 1935 e precisou vendê-lo por força das leis antissemitas do Terceiro Reich. Mudou-se para Nova York e morreu rico, talvez não exatamente como imaginava naquela manhã benfazeja do acordo. Tanto a biblioteca quanto o banco ainda existem. Em 1933, com a ascensão de Hitler ao poder, o Instituto Warburg foi transferido para Londres, onde permanece de portas abertas, figurando como um dos principais acervos das ciências da cultura. Já, o Banco Warburg – que manteve o nome apesar de não ser mais da família – envolveu-se recentemente num escândalo de fraudes bilionárias e teve sua reputação corroída. Olhando pela distância do tempo, Aby se deu bem. Foi o banco, não a biblioteca, um mero prato de lentilhas, uma iguaria muito saborosa, convenhamos, enquanto ajudava Aby a comprar livros. A história honrou a biblioteca.

Biblioteca Warburg em Hamburgo, antes de ser transferida para Londres.




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