top of page

A ostra e os raios do sol: sobre cortinas, cabelos e o que eles escondem

Para Mario Fragoso


Já fui como uma ostra a observar, pela fenda de minha concha, os raios do sol que me alcançavam timidamente através da espessa camada de água. Sentia os frágeis restos de luminância ondularem no fundo do mar, imaginando que a densa e turva faixa de água fosse o mais fino e límpido ar. Essas emanações filtradas do sol constituíam, para mim, a evidência mais clara de um além, de um mundo de espíritos, de um sagrado sem nome. Ou mistérios, para os quais hoje não ouso dar resposta alguma. A imagem da ostra emprestei do livro Moby Dick, de Herman Melville, que traz, em cada página, frases que evocam imagens paralisantes. Hoje ainda me vejo numa condição semelhante, com a diferença de que raios solares agora refratam numa viscosa mancha de óleo deixada por um petroleiro.


Me percebo menos inquieto com minhas dúvidas sobre um além e tento me banhar num cotidiano de ressonâncias de alma com amigos, com meus objetos e com o mundo. Ressoar implica entrar numa mesma vibração com o meu entorno. Gostei muito do último livro de Harmut Rosa, “Ressonância: uma sociologia da relação com o mundo” (ainda sem tradução para o português). O autor decide se voltar a situações e relações triviais para pensar o que significa, sem afetações acadêmicas, VIVER (CapsLk proposital), descobrir o tom correto de uma melodia secreta das coisas que nos cercam. É possível que o mistério se esconda numa flor na mão de uma bela garota que flagrei enquanto eu caminhava pelo lago. Com uma mão segurava seu caule e com a outra fazia uma selfie. A razão da flor, talvez, fosse um story do Instagram, fugaz como as pétalas que murcham sem água. Penso, porém, que, diferentemente, ela pode ter enviado a fotografia a quem ama e depois colocado a delicada a flor num vaso com água. Então o gesto vibra, ressoa, se desdobra numa história de outra pessoa e as pétalas durarão mais que um dia. De todo modo, ela seguiu seu trajeto, margeando o lago, segurando a flor até eu virar meu rosto.


A resignação numa ressonância com as coisas me atrai mais do que imaginar inutilmente o grande mistério por trás das cortinas. Os cristãos acreditam que o véu tenha se rasgado, enquanto eu desconfio que certas cortinas não revelam mais do que prestidigitação quando abertas. Na Grécia antiga, Parrasio desafiou Zeuxis a um concurso de pintura. Este empregou toda sua expertise na obra, representando uvas tão perfeitas que os pássaros se ajuntavam no cavalete, tentando inutilmente bicar a tinta. Parrasio, depois de rir secretamente, convida o oponente a visitar seu ateliê. Ao fundo, Zeuxis avista um quadro encoberto parcialmente por uma cortina. Aproxima-se e resvala sua mão na tela sem perceber que o tecido era a própria pintura, tal como Truman, a trombar contra o céu de Seahaven em seu veleiro. Tem pessoas que são ostras no fundo do mar artificial de Seahaven, a observar raios de luz estroboscópica de um refletor, certas de que são aquecidas pelo sol, através da água clara e filtrada de um gigantesco estúdio de televisão.


Tenho um amigo escrevedor, Mario Fragoso. Ele se diz ateu, frequenta a umbanda e tem crucifixos pela sua casa. Assim como eu, parece ser um sujeito de muitas dúvidas, embora o ateísmo pressuponha uma convicção tão forte quanto a de um crente, só que às avessas. Sua relação com o mistério das coisas perpassa sua casa, suas imagens, e as palavras que ele escreve. Seus textos são exuberantes pela forma como os constrói. O cara tem a manha de fazer neologismos, juntar palavras estranhas (como se o português fosse alemão), inverter expressões, sem perder o ritmo da dança. Enfim, tortura as palavras e as espreme até se rasgarem, só pra ver se dali sai um facho de luz. E geralmente sai. Mario também tem uma vasta cabeleira, diferentemente de mim. Seus cabelos são compridos e mais refratários que uma cortina blackout. Um dia, em tom de brincadeira, ele me propôs uma foto cobrindo minha cabeça com seus longos fios. Recusei. Achei estranho. No fundo, talvez, não quisesse descobrir se Mario esconde tatuagens na nuca. Há certas cortinas que não devem ser abertas.

Montagem de Marcia Turrisi inspirada em Moby Dick, de Herman Melville


Comentários


bottom of page