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VOCÊ TOMA FÔLEGO E MARCHA


Você toma fôlego e marcha.

É assim que começam as guinadas que a gente dá na vida. E eu dei grandes giros em torno de mim mesma nos últimos anos. Grandes voltas no meu micro planeta, minha terra interior.


Saí marchando e deixando muita coisa, sem ceder a tentação de olhar para trás e me entregar ao sal. E nem ao conforto da estagnação estampada nos olhos da Medusa. Não cedi.


Fé não é religião e, no final, um grande templo se faz mesmo é só dentro da gente. Tenho certeza de que algum dos deuses que qualquer um de nós (des)acredita sente orgulho ou inveja da determinação que minha fé em mim mesma me proporcionou em muitos momentos. Eu não cedo mais. Eu acredito e sigo marchando até o fim.


Costumo me lembrar com frequência da peça 'A Alma Imoral' (tive o prazer de ver na programação do FILO, acho que em 2017). O texto da peça - reproduzido lindamente por Clarice Niskier a partir da obra do rabino Nilton Bonder - revisava filosoficamente várias ideias e conceitos perdidos na boca do ordinário: termos como traição, revolução, sexo, obediência etc. foram desconstruídos sublimemente.


E eu estou me lembrando disso agora, pois hoje, novamente, aquele texto amanheceu se repetindo em minha cabeça. Numa narrativa bonita do livro cristão, Clarice rebate: "o Mar Vermelho não se abre para o povo hebreu passar. O povo é que marcha primeiro... O povo marcha e só depois é que o mar se abre".


Pois eu tenho marchado todos os dias, muitas vezes sem saber se algum mar se abrirá. E embora algumas ondas me derrubem eu me levanto e sigo firmemente entre elas.

 
 
 

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