Um projeto falido e um breve desabafo
- Fábio Silveira
- 24 de out. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 29 de nov. de 2023
Num grupo de whatsapp, em busca de personagem para uma pauta, uma aluna pergunta se alguém conhece pais que dão mesada a filhos. Respondi com o mesmo chiste que costumo usar quando me perguntam sobre a decisão de não ter filhos: preferi não colaborar para a continuidade deste projeto falido chamado humanidade. Muito mal humorado, mas um chiste. Mal humor que tem origem nos acontecimentos dos últimos dias. Eu acabara de ver no ICL Notícias, canal do Youtube, uma reportagem da jornalista Heloísa Villela, a única jornalista brasileira a cobrir o ataque de Israel a Gaza in loco. Ela mostrou a situação de crianças palestinas afetadas pelos ataques israelenses. O restante do noticiário não é menos desanimador: enquanto a crise no Oriente Médio ocupa o noticiário, a guerra da Ucrânia prossegue.
No Brasil, onde não existe oficialmente uma guerra, dezenas de ônibus foram queimados na cidade que é o cartão postal do país, em reação à morte de um líder de milícia – milícias outrora tão aclamadas pelos fascistas derrotados nas urnas no ano passado. Cidade-cartão postal, estima-se que algo em torno de 30% do Rio de Janeiro esteja sob controle do crime organizado. E por fim, completando o quadro dramático, os fascistas argentinos derrotados parcialmente, ainda não estão totalmente derrotados.
Some-se a isso a crise climática que levou a inundações no Sul e seca na Amazônia – em ambos os casos fenômenos extremos – e temos o quadro do terror. Um quadro que mostra que se o projeto é destruir o planeta, a humanidade está no caminho certo.
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Dia desses, conversando com amigos com os quais divido a sala de aula e os embalos de punk geriátrico nas manhãs de sábado, procurávamos um nome para dar ao mosaico das tragédias que embalam nosso cotidiano, muitas delas naturalizadas por parte da imprensa e pelas elites políticas e econômicas. Constatei que é difícil dar um nome para esses escombros do que um dia prometeu, mas nunca conseguiu ser uma civilização.
Toda vez que entro em sala de aula diante de meus alunos, jovens começando a vida aos vinte e poucos anos – alguns com menos de 20 –, fico constrangido em encará-los, sabendo que a minha geração está legando a eles um mundo pior do que o que recebemos. Mesmo sendo contra hegemônico e sem rezar pela cartilha do liberalismo e abominando o neoliberalismo, minha responsabilidade pessoal por esse fracasso coletivo é ínfima. Mas isso não apaga o fato de que a próxima geração viverá num mundo pior.
Há pouco tempo li Sapiens, best seller de Yuval Harari, que se propõe a escrever uma breve (brevíssima) história da humanidade. Polêmicas à parte em torno do livro – e existem vários questionamentos válidos a algumas conclusões de Harari –, o que me chamou atenção foi a constatação do autor de que, assim que se espalhou pelo planeta, o sapiens reduziu a diversidade ao se redor. E isso muito antes da Revolução Industrial. Daria para pensar que a constatação de Harari seria a prova de que caminhar para o abismo seria uma tendência irreversível da humanidade.
Mas mesmo considerando a humanidade um projeto falido até aqui, creio que ainda não passamos do famoso ponto de não retorno que tanto se fala quando o assunto é crise climática. A histeria dos negacionistas é eficaz para erguer cortinas de fumaça, mas não o suficiente para apagar o fato de que o abismo para onde caminhamos atende atualmente pelo nome de neoliberalismo. Desde a década de 1990 ouço e leio que o ritmo de consumo imposto pelo capitalismo é incompatível com os recursos do planeta e sua capacidade de regeneração. Os neoliberais não ligam para isso. Por um lado, exigem que a orquestra continue tocando enquanto o Titanic afunda; por outro, um dos representantes dos bilionários que nem deveriam existir, Ellon Musk, o herdeiro considerado por alguns como símbolo da “meritocracia”, delira com uma improvável colonização de Marte. A distopia parece ter sido prevista na letra de “A verdadeira corrida espacial”, da banda de hard core oitentista, Os Replicantes: “enquanto o terceiro mundo espera o juízo final/ eu quero uma vaga no ônibus da corrida espacial”.
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A tragédia é inevitável? Claro que sim. A resposta já é conhecida há muito tempo. Já se sabia desde o século XIX que existem alternativas e que uma delas é a barbárie a que o capitalismo nos conduziria - que por sinal é o caminho adotado até aqui. Parafraseando Ulysses Guimarães, no famoso discurso feito no ato de promulgação da Constituição de 1988, conhecemos o caminho maldito. O problema é que mesmo sabendo que esse caminho é maldito e leva ao abismo, continuamos acelerando o carro como se não houvesse amanhã. Como Thelma e Lousie, na cena final do filme: rumo ao abismo e com um sorriso nos lábios.
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Parênteses
Falando em jornalismo: Heloísa Villela é a única jornalista brasileira a cobrir in loco os ataques de Israel a Gaza, em retaliação (desproporcional) ao ataque do Hamas no começo de outubro. É sintomático que o único veículo de imprensa que enviou uma correspondente ao Oriente Médio seja do ICL Notícias, que faz parte do ecossistema de uma mídia progressista que tenta disputar a hegemonia na imprensa brasileira. A estrutura da repórter, que por anos foi correspondente da Globo em Nova Iorque, é minimalista: um celular e um tripé e qualidades de sobra, como coragem e honestidade intelectual. É assim que Heloísa Villela está fazendo o jornalismo de qualidade que a imprensa brasileira, com unilateralidade e maniqueísmo, não faz na cobertura internacional. Sobram nela qualidades que faltam em figurões como Jorge Pontual, que de Nova Iorque, a uma distância segura do conflito do Oriente Médio, vocifera em favor dos ataques de Israel e defende que não haja trégua nem para a ajuda humanitária.
Se há algum legado que o jornalismo Gonzo deixou para o jornalismo do século XXI, o trabalho de Heloísa Villela traduz parte deste legado.

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