Um Jornalismo Gonzo para chamar de seu
- Silvio Demétrio
- 31 de mai. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 8 de jun. de 2023
“Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba”.
Em “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla.

Não foi fácil e ainda não elaboramos completamente o sentido: como não se sentir tolhido e impotente diante de uma cifra apocalíptica de 700 mil mortes causadas por uma pandemia que chegou junto com as sombras de uma extrema-direita brasileira ocupando o Palácio do Planalto? Foi uma pororoca histórica provocada pelo encontro mítico das águas turvas do
Estige com as do Aqueronte. Se por aqui continuamos é porque em alguma medida nos isolamos e nos embrutecemos. Engolimos a seco tudo aquilo que queríamos gritar pelas ruas de nossas cidades entristecidas e tomadas pelo vírus e pela massa infantilizada de zumbis da CBF. O fascismo chegando a galope em nossas famílias e amizades, no convívio dos ambientes de trabalho e de sociabilidade até a saturação. Não deu e não dá para fazer ouvidos de mercador. Não dá para naturalizar. Com o asco não se negocia. O fascismo é intolerável em qualquer nível ou escala.
O que de pior pode acontecer numa situação assim é a sensação de impotência. É quando consegue provocar essa sensação que o fascismo começa a se fortalecer. Ele se alimenta da impotência que causa com suas intimidações. E o que se faz para escapar desse mata-leão? O que melhor parece a mim num contexto doméstico é avacalhar geral. A avacalhação contra o espírito de rebanho. Seguindo a epígrafe que abre essa elucubração em forma de texto, aquilo que chamam de “ensaio” num entorno mais acadêmico, o esculhambar-se também segue na mesma intensidade e simetria. A gente se expõe, mas tem que ter método. Da mesma maneira a gente desnuda aquela bruma que a civilidade precipita toda vez que um sapo passa pelo nosso esôfago. O engolir anfíbios da ordem anura é a marca fundamental de todo o processo civilizatório. O problema é que o fascismo nos exige uma certa cota em vômito.

Dobrar a intolerância sobre si até que ela se extinga consigo mesma num uroboros inverso (não uma imagem mítica do infinito, senão a sua simétrica imagem inversa do niilismo cujo ódio anula-se a si mesmo).
Isso de escancarar com a realidade é uma marca fundamental do jornalismo Gonzo. Quem o inventou foi Hunter Thompson. Ao ser pautado pela revista Rolling Stone para cobrir uma corrida no deserto ele acabou abandonando o que havia combinado com seu editor e voltou com algo totalmente diferente de uma reportagem convencional sobre automobilismo. Thompson embarcou numa longa e estranha viagem ensaística sobre o fim do “sonho americano” e da paleta cinza chumbo dos anos que se seguiram à eleição de Nixon. A grande reportagem foi publicada em série na Rolling Stone e depois foi editada em livro. “Fear and Loathing in Las Vegas” é um clássico do jornalismo exatamente por conta disso. Parafraseando Pound à maneira de um surrupio pós-moderno, pode-se dizer que o jornalismo gonzo coloca o repórter como “antena da raça”. Hunter Thompson fez as pazes entre o jornalista e seu “eu” lírico para melhor entender seu tempo. O jornalismo Gonzo é um jornalismo que se permite o ensaio como forma, como método. Isso é “esculhambar com método”.
Aqui no Brasil a tradução do título do livro consagrou “Medo e Delírio”. O mais correto talvez fosse “asco”, “aversão”. Não consigo pensar naquela foto daquele infeliz mostrando uma
caixa de Cloroquina para uma ema palaciana como algo que não fosse profundamente asqueroso. Uma imagem de escárnio e indiferença à dor de uma massa de vítimas e de pessoas enlutadas que o COVID deixou como rastro. A imagem soa quase como um delírio, uma alucinação. Uma bad trip.
“When The Going Gets Weird, the Weird Turn Pro” é a frase gonzo lapidar de Hunter Thompson. “Quando as coisas se tornam bizarras, o bizarro se torna profissional”. O imperfeito. O barroco (que vem do espanhol “barrueco”, pérola de forma imperfeita). Fazer jornalismo gonzo é subverter a pauta. Voltar sempre com outra coisa. Com outro olhar. Deslocar os sentidos. “Avacalhar”, mas com método. Fundamental desobediência civil ao jornalismo de bons moços, todos eles filhos dos cidadãos de bem. “Esculhambar”, pero sin perder La ternura jamás! Um jornalismo alucinado para tempos convulsivos. É só colocando a primeira pessoa do singular em primeiro lugar que resistiremos ao fim da escrita orgânica. “É seu Chat GPT, a parada não vai ser assim tão fácil não!”. O contrário do narcisismo contente com as alucinações dentro de suas bolhas-casulo em suas Matrix particulares e de classe média alta. Esse outro “eu” é um “eu gonzo”. Um “eu outro” como o do verso fatal de Rimbaud traduzido pelos londrinenses Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça: “é que eu é um outro” (je est un outre). A autoreferencialidade de um eu que se percebe como diferença encravada entre o ser e a linguagem que o diz. As Iluminations de Arthur Rimbaud. A iluminação do jornalismo Gonzo de Hunter Thompson. Um satori pé-vermelho tal qual um fotografia do mestre Haruo Ohara. Um jornalismo Gonzo para chamar de nosso.

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