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Diga xô à tecnocracia

Um certo boom editorial tem colocado em pauta no Brasil toda uma literatura de contestação e ativismo político como os textos de Raoul Vaneigen, Guy Debord, Hakin Bey e etc. O filão editorial tem rendido e já começam a aparecer indícios de que este tipo de literatura torne-se referência obrigatória para todos os que de alguma maneira pensam em recuperar o sentido do que seja militância política na confusão pós-moderna que se abate sobre o globo. Podemos considerar a formulação destes discursos de ruptura e transgressão

como resultantes do fenômeno histórico, social e político conhecido como “Contracultura”. O ponto de articulação do qual partimos aqui é a definição de Contracultura elaborada pelo sociólogo americano Theodore Roszak e a obra conjunta de Gilles Deleuze e Félix Guattari, especialmente no tocante ao conceito de linha de fuga. Afinal de contas, o que é contacultura?

Por Contracultura entenda-se o enquadramento das forças político culturais que confluem para uma crítica da tecnocracia e do controle social resultante desta na sociedade industrial. Roszak, sociólogo americano da década de 70, situa este enquadramento como um plano que começa a se expandir a partir do conflito de gerações que se estabelece na América do período pós-guerra. Segundo o sociólogo, a Contracultura surge a partir do desencanto com o modo de subjetivação dominante no pós-guerra americano, o chamado american way of life.

Existe uma causa sociológica para tal fenômeno de emergência da polaridade de gerações no debate político: uma bolha demográfica que irrompe na década de 50 é a causa do baby boom – um substancial aumento nas projeções demográficas de uma população jovem que passa a ser a base desta mesma sociedade. É sobre o plano sociológico desse incremento da população jovem do pós-guerra que vai germinar uma forma de cultura, a princípio, não fundamentada nas bases institucionais que garantem a estabilidade da tecnocracia. Esta é a dimensão que reúne então sobre o conceito de contracultura manifestações como a beat generation, a nova esquerda, a imprensa underground e o movimento hippie: a rejeição dos valores que fundamentam a tecnocracia. Para Roszak a tecnocracia vem a ser a forma pela qual se institui uma ordem social fundamentada no controle desta através da técnica.

A tecnocracia pode ser entendida como a racionalidade de um poder assentado sobre um saber técnico, logo especializado, o qual concebe a sociedade como uma positividade passível de ser administrada segundo as determinações deste saber especializado. É o poder que coloca em curso uma engenharia social. Segundo Roszak a tecnocracia se constitui num nível subjacente ao debate entre a direita e esquerda políticas. Ambas as orientações políticas competem entre si no plano ideológico, mas este antagonismo mesmo não deixa de sugerir um falso movimento, no sentido de que a projeção da qual se constitui este nível ideológico permanece intacta.

A rejeição às injunções da tecnocracia pela cultura jovem da transgressão, a contracultura portanto, marca o nascimento de uma linha de ruptura com valores fundamentalmente modernos, já que amparados por uma base que lhes é dada pela razão como valor transcendente. “Liguem-se, sintonizem-se e caiam fora”, dizia Thimoty Leary (uma das principais figuras da época). A contracultura foi, segundo Roszak, a emergência de um discurso pautado por contra-poderes não intelectivos. Se a racionalidade moderna converteu-se na esmagadora tecnocracia que aliena o indivíduo cabe então opor a esta ordem uma forma de conhecimento que seja inapropriável – um saber subjetivo que só pode ser definido como intensivo, não-objetivo. Saber que nasce portanto de uma ruptura com a racionalidade mesma que institui e distribui o poder entre a esquerda e a direita. É desta maneira que a contracultura desenha para si um plano intensivo. Não dialético; não axiológico. Portanto a contracultura se desenvolve no que Deleuze e Guattari definem como sendo um espaço liso, em contraposição ao espaço estriado.

Esse par conceitual delineado num dos platôs deleuzo-guattarianos foi desenvolvido a partir de uma idéia de Pierre Boulez, formulada a respeito de sons que são imediatamente reconhecidos dentro de uma composição como sendo sons musicais – o que determina um espaço estriado, em que cada som tem um valor musical imediatamente reconhecível, convencional segundo a semiotização dominante do código musical – em contraposição, há um outro tipo de espaço que é próprio da nova música, um espaço de sons que não são imediatamente reconhecidos como musicais pois se desenvolvem num espaço liso onde as identidades fixas são substituídas pelas intensidades nômades.

Podemos pensar este novo valor intensivo que a contracultura cria para si como uma linha de fuga das potências fixas que a tecnocracia estabelece ao estriar o social. É este o plano político da contracultura: drop out, literalmente “cair fora”, fugir. Não no sentido de uma fuga do mundo, mas exatamente o contrário. “A linha de fuga é uma desterritorialização”, como dizem Deleuze e Guattari. É a “aquisição de uma clandestinidade”. Coloca-se numa linha de fuga todo aquele que proustianamente escreve em sua própria língua como se escrevesse numa língua estrangeira. Uma linha de fuga é uma linha que leva ao deserto. A fuga aqui é uma deserção das potências fixas. Quem se coloca sobre uma linha de fuga não é um fugitivo mas um desertor: aquele que se dirige para o deserto, espaço de desterritorialização absoluta. Muhammed Ali traça uma linha de fuga ao desertar diante de sua convocação para o Vietnã. Não somente pela recusa em reconhecer a legitimidade de sua convocação, mas sobretudo por traçar uma linha de ruptura que desterritorializará os valores da sociedade tecnocrática que o recrutou em vão. Uma linha de fuga é esta forma de ruptura. Isto é contracultura. Militância política como deserção do estabelecido.

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