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Sobre tiros e mentiras


Escrevo sob o calor dos acontecimentos trágicos ocorridos em Cambé nesta segunda-feira. É um daqueles momentos em que é difícil encontrar palavras que traduzam o tamanho da tristeza e da perplexidade. O assunto ganhou rapidamente o noticiário nacional, o que me fez buscar informações sobre a tragédia internet afora. Na busca me chamou atenção uma repórter da RPC, que entrando ao vivo, em frente ao Hospital Universitário (HU), fez o seguinte alerta: “só estamos levando ao ar as informações que foram confirmadas”. Nas entrelinhas, isso significa que a equipe tem várias outras informações nas mãos, mas por mais que elas possam ser relevantes ou bombásticas, só serão levadas ao público depois de uma rigorosa checagem. Um feixe de luz em meio ao obscurantismo da nossa barbárie cotidiana.


Lembrei um certo “repórter” (as aspas salientam a falta de estofo para o ofício), que em outros tempos tomou um esculacho em rede nacional do apresentador Marcelo Rezende: sem conseguir explicar o motivo de uma prisão, o pobre diabo tentou contar um boato que envolvia a personagem. Foi interrompido bruscamente. Por mais que a fofoca segurasse a audiência, Rezende explicou ao neófito que boato não prende ninguém e nem é notícia.


O tempo é determinante para o jornalismo. Dentre as quatro características centrais do jornalismo elencadas por Otto Groth, um pesquisador alemão que foi aluno de Max Weber, duas estão relacionadas ao tempo: a periodicidade e a atualidade. O tempo garante a adrenalina que vicia jornalistas que apreciam o trabalho nas redações, mas também pode ser uma armadilha para quem se dedica a essa atividade que é uma forma importante de produção de conhecimento sobre o cotidiano (eu diria que a mais importante). Por isso a ressalva da repórter ganha importância. Entre a audiência e a credibilidade, a opção pela credibilidade.

A forma mais eficaz de combater as notícias incorretas que corroem a credibilidade da imprensa as fake news que usam essa perda de credibilidade para ganhar força e tração redes afora, é mais jornalismo. Mesmo nos pontos em que ele possa se chocar com a luta pela atenção do público – atenção que é vendida aos anunciantes e por isso é lucrativa para as empresas jornalísticas.


Irrealidade cotidiana

Sem poder fugir do diálogo com um fascista, ouvi a velha ladainha de que o presidente Lula “não ganharia nem eleição para síndico” e que a fraude nas urnas “colocou” quem o “sistema” quis que assumisse a presidência – e não quem o povo queria no cargo. Mesmo que o “popular” Bolsonaro tenha conseguido perder uma eleição na qual usou o orçamento público para comprar votos e seis meses depois de instalado o novo governo.


Dessa pequena e até banal amostragem do universo paralelo em que vive a bolha bolsofascista, inflada por fake news, chegamos ao artigo “Quando a exceção vira norma”, de Lygia Maria, mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSV) e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP é um pulo. O artigo foi publicado na Folha de S. Paulo e em resumo, a autora critica “a ideia de ‘excepcionalidade’” usada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) “para censurar Monark” com o bloqueio de suas redes sociais.


Monark é um influenciador digital que caiu em desgraça ao defender a legalização do partido nazista. Desde então radicalizou ainda mais um discurso baseado em fake news e teorias conspiratórias da extrema direita. Considerado um desinformado (para ser polido) pelo próprio público nos tempos do podcast Flow, ele é uma espécie de paradigma do pesadelo em que se tornaram as redes sociais pós-Cambridge Analytica: sonhamos com a desintermediação e acordamos com o Monark.


Voltando ao artigo: Lygia Maria critica a argumentação de Moraes, que classifica como “ilícitas” as atividades de Monark, responsável pela divulgação de notícias falsas. Segundo a articulista, o que Monark divulga são opiniões e não notícias. E por mais erradas que sejam, não poderiam ser “criminalizadas”. “Ainda pior: tal opinião pode vir a incentivar um ato golpista sabe-se lá quando”, escreve. A colunista conclui citando Hannah Arendt, em “Origens do totalitarismo”, dizendo que a filósofa alemã “mostra como governos usam o medo coletivo, criando inimigos internos e externos, para consolidar poder e justificar repressões”.


Existem vários problemas na argumentação de Lygia Maria, a começar pela citação de Arendt. A filósofa dedica parte do mesmo “Origens do Totalitarismo” para falar sobre como a mentira é fundamental para o projeto totalitário e como, ao suprimir a verdade factual do mundo, ela adequa a realidade à sua doutrina. Em outro texto, ao tratar sobre os conflitos entre verdade e política, Arendt diz que “a liberdade de opinião é uma farsa, a não ser que a informação fatual seja garantida e que os próprios fatos não sejam questionadas”. As opiniões de Monark, descoladas da verdade factual, tentam questionar os fatos como e eles fossem “simplesmente uma outra opinião (pelas palavras de Arendt”.


Além do mais, barrar as mentiras de Monark e alegar que não são tão inofensivas, a ponto de bloquear as contas está longe de ser “censura prévia”. As mentiras de Monark já foram lançadas no debate público, inclusive atacando pessoalmente o próprio Moraes, numa atitude desafiadora de quem deseja ser mártir da causa. Há que se lembrar também que a situação do país está longe da normalidade institucional – vide as inconfidências flagradas no whatsapp de “Cidão” o ajudante de ordens e co-conspirador do golpe de Estado que não saiu do papel.


A preocupação de Lygia Maria com abusos de poder por parte do Judiciário é legítima e a vigilância é recomendável. Mas tal preocupação não cabe no caso de quem divulga mentiras longe de serem inofensivas.


Voltando à tragédia de Cambé, o discurso totalitário chancelado pelos “Monarks” da vida, nesse mundo paralelo de conspirações e pílulas vermelhas (apud Matrix) alimenta a alma e o ódio de neonazistas escondidos nos submundos das internets. A propósito, segundo reportagem do Jornal da Band, uma das linhas de investigação sobre o assassino de Cambé é o envolvimento dele com células nazistas – que segundo estudo da antropóloga Adriana Dias, cresceram consideravelmente na triste Era Bolsonaro. Os influenciadores da mentira e da conspiração não apertam diretamente o gatilho, mas dão combustíveis para os massacres como este, de 19 de junho.


O jornalismo sério, baseado na checagem exaustiva dos fatos, pode ter um papel relevante no combate à barbárie.

 
 
 

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