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Sobre professores e traficantes


Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil


No último fim de semana, em Brasília, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL/SP) foi a um ato a favor do armamentismo e no seu discurso comparou professores a traficantes. Comparou é eufemismo, porque para o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), agora inelegível, professores “doutrinadores” seriam “piores que traficantes” – ou seja, entre professores e traficantes, os traficantes levariam a melhor. Em tempo: por doutrinadores entenda-se qualquer professor que não seja terraplanista, nem anti-vacina, só para ficar em dois exemplos.


Bolsonaro, o pai, na campanha em que tentou, sem sucesso, conquistar mais um mandato, disse que seu então oponente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), fecharia clubes de tiro e construiria bibliotecas no lugar. Acreditem: Bolsonaro não estava pedindo votos para Lula. A frase revela que bibliotecas são indesejáveis para bolsonaristas.


Essas cenas ilustram algo que não é novidade em se falando de Brasil, mas que mudou de patamar: a educação está sob ataque. Na verdade sempre esteve. Em condições normais de temperatura e pressão, no estado democrático de direito à brasileira professores sempre foram atacados com achatamento salarial, sucateamento de escolas e de condições de trabalho e quando saem para protestar, o governante “democrático” de plantão, devolve com agressões que vão da cavalaria às balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo.


Com a escalada que começa em 2016 com o golpista Michel Temer de um lado e a Lava Jato com seu telhado de vidro do outro, a tragédia da educação brasileira mudou de patamar. A equação Temer + Lava Jato trouxe ao Brasil mais dores de cabeça do que as mesóclises forçadas para demonstrar cultura e o português precário dos heróis da luta anti “cupição” (toda vez que os heróis da Lava Jato tentam falar a palavra corrupção, uma fonoaudióloga morre por dentro). Na educação, com uma mão Temer implantou de forma autocrática a reforma que revolucionou o ensino médio, trazendo ao currículo disciplinas que desvendam grandes questões da humanidade, como o brigadeiro caseiro e “o que rola por aí”. Com a outra implantou o “teto de gastos” – felizmente derrubado –, restringindo investimentos em diversas áreas, inclusive e talvez principalmente, a educação – mas poupando o mercado financeiro.


A soma de Temer com a turma anti “cupição” preparou o terreno para a chegada da extrema-direita ao poder. O projeto dos extremistas vai muito além de professores mal pagos, prédios sucateados e uma escola desinteressante para destruir as novas gerações de brasileiros. A “escola sem partido” (mas com a ideologia dos seus defensores) quis dar um passo adiante.


Abro parênteses para uma experiência pessoal. A “escola sem partido” da ditadura militar (1964-1985) tinha Educação Moral e Cívica, depois Organização Social e Política Brasileira (OSPB) e no ensino superior a famigerada EPB (Estudo dos Problemas Brasileiros), que não tinham a menor relevância. Era uma escola tão próxima da realidade, que na oitava série, ao mesmo tempo em que minha professora de OSPB falava na sala de aula que a República Federativa do Brasil era uma democracia, em Brasília o Congresso rejeitava a Emenda Dante Oliveira e a esperança de uma eleição direta para presidente da tal República Federativa em 1984 ou em 1985, quase um quarto de século depois da última eleição direta. Se fosse para dicionarizar, diríamos que uma escola que “ensina” aos alunos conteúdos fora da realidade, na verdade está fazendo doutrinação. Fecha parênteses.


MEIA VOLTA VOLVER!


Parte da estratégia do governo de Jair Bolsonaro para avançar sobre a educação (e não para fazer a educação avançar) estava na militarização das escolas, com as tais escolas cívico militares. Junto com a lavagem cerebral para a criançada, vinha uma boquinha onerosa para a sociedade, mas generosa para quase 900 militares aposentados, que recebiam até R$ 9 mil por mês para entrar nas escolas e ensinar seus valores para as crianças. Segundo reportagem publicada pelo UOL, o valor mais baixo pago para militares se imiscuírem nas escolas era de R$ 2,6 mil, no caso de terceiro sargento. E chegava ao teto de R$ 9 mil, no caso de coronéis. Uma doutrinação muito lucrativa. O piso da educação no Brasil, que está sendo implantado a duras penas é de R$ 4,4 mil.


E quais valores “cívico-militares” os bem remunerados milicos aposentados teriam para ensinar? Os mesmos que eles aprendem, professam e tornaram públicos na gestão Bolsonaro: que não existe racismo no Brasil, que o país não é desigual, entre outros terraplanismos, passando pelo negacionismo da pandemia e da vacina. Além disso, pretendiam impor "disciplina", militarizando a infância. Pela amostragem do que vimos no Brasil nos úlitmos anos, essa militarização poderia se confundir com fanatização. Militarização num país que não participa de uma guerra há 78 anos. De novo: uma escola que “ensina” fora da realidade está doutrinando.


Felizmente as escolas cívico militares foram arquivadas nesta semana pelo Ministério da Educação.


TRIPÉ MACROECONÔMICO


Todos esses ataques que tentam deslegitimar a escola, criminalizar e desumanizar professores – e ao desumanizar legitima-se a possível eliminação física, como a que já acontece nas periferias brasileiras – têm uma razão de ser. O projeto dos neofascistas cai como uma luva para o neoliberalismo. Não é por acaso que Paulo Guedes amava Pinochet, que era amado por Milton Friedman. Para uma economia excludente, em que a maioria é descartável, não é preciso uma escola que forme profissionais qualificados e com uma visão crítica do mundo. Como se diz em tom jocoso, mas duramente realista, na internet, o tripé macroeconômico de Guedes, o farol dos “Chicago oldies”, era formado por Uber, bolo de pote e only fans. Por isso a educação pública, do jardim de infância à universidade, se tornou descartável e os professores, vilões. O objetivo do bolsofascismo era construir uma escola precária para deformar uma juventude para a qual a política econômica de Guedes pretendia legar um país sem futuro. Parte do pesadelo, que seria Bolsonaro com um novo mandato e a possibilidade de intervir no Supremo Tribunal Federal (STF), está suspenso.


 
 
 

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