Signos sequestrados
- Silvio Demétrio
- 26 de set. de 2021
- 4 min de leitura
Silvio Demétrio
É a lógica da captura. Toda estrutura dos argumentos e figuras de retórica que a ultra-direita usa é uma reconversão do ideário não só da esquerda tradicional e institucionalizada como até mesmo das transversalidades que tentam traçar uma linha de fuga dessa conformação disciplinar que é o campo da política. Pautas minoritárias, feministas e até ambientais tornam-se todas como que por sortilégio num tipo de autômato mesmerizado como um boneco de ventríloquo que fala somente segundo a voz de um outro despótico.
A maneira como a deputada Tabata Amaral coloca o feminismo a serviço do neoliberalismo dos mesmos tubarões pardos e machistas de sempre. O rapto da palavra “libertário” ou “libertária” pela insanidade diletante dos delírios persecutórios de Rodrigo Constantino em sua paranoia anticomunista. “Libertário” é tudo o que o liberalismo repele. Libertários são os anarquistas, os revolucionários, os insubmissos às injustiças e desigualdades que são criadas pelos que cantam a liberdade somente como sortilégio para aprisionar tudo e todos ao mercado como fundamento último e definitivo da realidade. Libertários são os poetas que jogam com a linguagem para dela extrair novos e possíveis mundos. Libertários são os que ousam não conformar-se.
É um sequestro da forma. Esvazia-se o sentido, a história, a singularidade. Por dentro dessa
casca vazia colocam-se toda sorte de infelicidades ideológicas que convergem para manter a estupidez no poder. É daí que emergem oximoros encarnados (um oximoro é uma figura de linguagem construída pela contradição de seus termos como “morrer de tanto viver” ou “o som do silêncio”). Troca-se o presidente da Fundação Palmares pela reinstitucionalização do capitão do mato na figura de Sérgio Camargo. Zumbis que não são “dos Palmares”. Não são heróis libertários, senão seu exato oposto. A infelicidade extraída de um roteiro enlatado de algum filme “b” e que se escreve sempre em minúsculas: zumbi. Daqueles que se aglomeram em ondas e que se arrastam inconscientes em hordas por cenários distópicos. Cinema previsível. Cinema entretenimento. Cinema vazio. Cinema morto. A falência de tudo.
Um vírus age assim. Hospeda-se em algo vivente unicamente para reproduzir-se. A tristeza é um vírus. Uma forma de vida não orgânica. Disjuntivo: nem vivo, nem inanimado. Latente na natureza como um ovo da serpente. O velho Burroughs já dizia e Laurie Anderson canta: a linguagem é um vírus. A serpente choca seus ovos e troca sua pele. Eis que alguns ovos já eclodiram e sem pudor se exibem em sua arrogância fascista. As escamas dessa pele que se troca vão se espalhando por todos os lados como cascas vazias. Signos vazios de um discurso fático cuja eficiência está em manter agenciada a claque de fanáticos. Palavras de ordem.
Tomemos como signo a ser analisado a imagem contracultural das gangues de motocicletas. Fenômeno cuja origem está ligada ao pós-guerra nos EUA. É de 1953 o filme “O Selvagem” (The Wild One), estrelado por Marlon Brando e dirigido por Lásló Benedek. O jornalista fora da lei Hunter Thompson imortalizou-se com uma série de reportagens publicadas na Rolling Stone sobre como a mídia “produziu” os Hell’s Angels como fenômeno massivo. Ainda nos psicodélicos anos 60 Peter Fonda, Dennis Hopper e Jack Nicholson viveram a aventura de percorrer de motocicleta a América a contrapelo no grande clássico contracultural Sem Destino (em inglês, Easy Rider). Em todos os casos a motocicleta é um signo libertário, no sentido já comentado antes aqui. É um componente avesso aos códigos estabelecidos e que afirma a liberdade como uma potência transformadora à serviço da mudança.
Bolsonaro se apropria desse imaginário para colocá-lo a serviço do seu exato oposto. As “motociatas” (que neologismo horrível!) são a expressão consumada de uma sociedade na qual qualquer singularidade foi extirpada. A palavra de ordem como fato consumado. Nada é “easy”. No contexto da contracultura motoqueiros eram o avesso disso - nômades numa linha de fuga como Arthur e Parsifal, Don Quixote e Sancho Pança, Pat Garreth e Billy The Kid, Peter Fonda e Dennis Hopper. Quão horrorosa é a paródia na qual figura Bolsonaro levando pendurado em sua garupa o bufão skinhead que vende a própria mãe à indústria de falcatruas que sustenta o desgoverno. É mequetrefe demais. Dá vergonha. Perdemos o binômio de cores verde e amarelo e a bandeira para a insânia. Que fiquem com a camisa da CBF. Essa nunca mais.
A nova extrema direita extrai sua força do arremedo. Contra a paródia só resiste a invenção – motor que coloca em movimento contínuo tudo e todos. Nunca precisamos ser tão modernos quanto agora. Caso contrário seremos todos sugados até a medula pela versão capenga que a direita apresenta da esquerda. A direita institucionalizou a esquerda. Domesticou-a segundo seus códigos. Capturou-a. Grandes capitalistas e vedetes do mercado difundem pela mídia e através de seus avatares seus discursos recheados de iscas tiradas de movimentos e reivindicações que na sua origem são legítimos. A direita de hoje é uma releitura pós-moderna da esquerda. Pastiche. Paráfrase. Distorção. O golpe não só como coup d’etat, mas como o excesso de vulgaridade de uma trapaça tosca. Facão. Eles nos vencem é pelo cansaço. Pela saturação de suas veleidades. Ai deles quando retomarmos a invenção como nosso combustível. A ironia. Aos ladrões de signos escandiremos nossos estandartes da criação radical. Sem concessões. Mais do que nunca produzir e realizar no sentido mais direto dos termos: alterar as condições materiais de existência. Tocar o rebu. Chega de gente tosca no poder.


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