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Relato de uma aventura estática quase imóvel

Tudo começa com a inconsciência e tudo assim deve terminar. Acorda-se como se nasce ou se nasce como se acordar-se fosse. Um fóssil em leito de lã tal qual aqueles insetos captados pelo âmbar de outros amarelos e distantes dias. Uma bolha vítrea, lâmina de tempo em suspenso porque saturado em sua transparência. Punhado de sal que se arremessa ao oceano. Ao tempo interno que se tenta contar se sobrepõe um invólucro inorgânico de um outro tempo. Fruto e caroço. A polpa macia e intangível da duração que envolve a aspereza do tempo encaroçado dentro de si que se sente. Tempo de dobra. É como se o cérebro fosse o caroço do mundo. Um tempo que é uma semente em sua potência e outro que é um tempo do FORA, inorgânico e impassível. Duração absoluta. Tempo dobrado do tempo como um espaço dentro de outro espaço. Uma série de caixas que se encaixotam umas nas outras. Encaixes. É curioso como se pensa o tempo sob o signo da unidade, da duração – um caroço-cérebro e um mundo-polpa. Um e um. Quanto ao espaço então o pensamento se dispara em multiplicidades. Recorte sobre recorte. Entre uma caixa e outra é possível sempre se intercalar outra e outra e assim por diante até a dissolução numa caixa apenas concebível. Incorporal como o puro acontecimento de uma caixa como origem ou como final. Espaço é recorte e tempo é fluxo. E se cada caixa dos espaços que nos constituem se preenchesse com tempos distintos que ao fluírem então se encaixam uns nos outros formando uma escada-escala em espiral? Sobe-se ou desce-se conforme se dobra o sentido sobre si em ambos os sentidos. E toda escala é sempre musical, mesmo que não o seja porque ela é a relação entre o único e o múltiplo. O indivíduo dura enquanto o sujeito desdobra-se, multiplica-se. Somos muitos porque somos únicos. O plural nos condena à multidão. Não mais um fóssil sobre um leito de lã, mas um sambaqui daquilo que acolá além fora um mundo para alguém. Seus ossos e inutensílios. A eternidade é mineral. Inorgânica. A eternidade é o que resta. A eternidade samba aqui e agora. No espaço e no tempo com olhos de âmbar e pupilas de insetos fósseis. O zumbido do olhar que se sente no silêncio de sua atenção. Olhar que voa. Pássaro que se capta apenas com antenas de TV. Pálpebras são asas. Elas se batem como os lábios nervosos de quem fala sem ser ouvido. O pecado e a pena da fala que falha porque não vence a ausência de atenção. A solidão. Os olhos querem ser ouvidos por outros olhos que os encontrem e os escutem. .. os escoltem. Ver é fluir e ouvir é desdobrar-se. Quem vê é quem flui, quem fui e não sou mais. A vidência das palavras in vitro, como o inseto no âmbar . A carne da linguagem que se morde com a fala e se lambe com a língua. Um beijo de muitas vozes que se ouvem dele, umas dentro das outras. Uma sucessão de outros eus todos encaixados e que já foram aquele eu que é agora. Memória. Em francês mémoire: méMOIre. Intraduzível. Um eu (moi) que apenas é se já de princípio é como caroço e núcleo de uma memória. O mundo como polpa cuja boca da memória sorve os sucos que lhe fluem. O mundo que se beija com palavras. Um mundo que se encaixota e se encaixa porque ele se permite deixar-se construir. Só existe um mundo depois de um olhar que o organiza. Caixas de linguagem. Na caixa “chuva”, a chuva, e na caixa “poesia”, todas as palavras e mais uma que ainda não a inventaram. Escrever às vezes é desencaixotar. Chegar a lugares novos e ainda incógnitos. Por vezes desertos, mas por sorte e fortuna habitados pela potência de um povo que virá. Lugares do vir-a-ser. Lugares do tornar-se. Lugares de uma insistência incorporal. Mudança em intensidade, sem nenhum deslocamento. Aceleração imóvel porque tempo e espaço se diluem nos domínios da potência. Dimensão de escape dos poderes que nos querem sedentários. Não somente no espaço, mas sedentários por debaixo de nossas peles. Saia e veja o mundo mesmo que seja sem se levantar de onde se está rigorosamente agora que sua leitura termina aqui. Assim, pois tudo começa com a inconsciência e tudo assim deve terminar.




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