Os 10 anos da “revolta dos 20 centavos”
- Fábio Silveira
- 1 de jun. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 5 de jun. de 2023
Parte 1

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil - Exposição Cidadãos de Junho, feita em 2014, na Fundação Casa Rui Barbosa
No fim da tarde de segunda-feira, centenas de jovens começavam a se concentrar em frente ao Cine Teatro Ouro Verde, no Centro de Londrina. Em pouco tempo eram milhares, muitos deles empolgados por participar pela primeira vez de uma manifestação de rua. Entre eles encontrei meu sobrinho, à época com 20 anos, comemorando uma mobilização com a qual sonhara e que via se materializar diante dos seus olhos. Seria a estreia e o ponto alto da geração (até ali) no espaço público. Eu estava lá como repórter. Minha geração debutou nas ruas duas décadas antes, pedindo o impeachment do mesmo Fernando Collor de Mello, há poucos dias condenado à prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção (31 anos depois de deixar a presidência cassado). Entre os dizeres dos cartazes escritos pelos manifestantes, apareciam frases como “não é só pelos 20 centavos”, o que mostrava um deslocamento com relação ao espaço: na semana anterior o preço da passagem de ônibus tinha ficado 10 centavos mais barata em Londrina.
A manifestação percorreu ruas centrais da cidade e por onde passava era apoiada por motoristas (apesar do engarrafamento) e pelas janelas. Atravessou o calçadão do centro da cidade e percorreu toda a avenida Higienópolis. No fim da Higienópolis, na rotatória com a avenida Madre Leônia Milito, uma encruzilhada se apresentou diante daqueles jovens: parte do grupo queria seguir em passeata até a avenida Ayrton Senna e depois descer até o aterro do Lago Igapó, passando por uma área loteada recentemente e que em pouco tempo se tornou um dos metros quadrados mais caros da cidade; o outro grupo queria cobrar a quem de direito: ir até o Centro Cívico, sede de Prefeitura, Câmara e Fórum, representando os três poderes. A maioria foi para o bairro nobre.
Uma década depois, a cisão entre os que queriam passear pelas avenidas do bairro nobre de Londrina e os que queriam bater na porta do poder instituído continua aberta.
A segunda-feira em questão era 17 de junho de 2013, um momento em que a maré das manifestações tinha virado. Desde o começo de junho o Movimento Passe Livre ocupava as ruas da cidade de São Paulo para protestar contra o aumento de 20 centavos na passagem de ônibus. Era daí que vinham os 20 centavos dos cartazes vistos em Londrina. Os centavos foram usados pelo então comentarista Arnaldo Jabor, que acusou os manifestantes de “não valerem nem” o valor do aumento da tarifa. Os jornalões Estado e Folha de S. Paulo, em editoriais por volta de 11 e 12 de junho cobraram a liberação da avenida Paulista, cujo bloqueio repercutia em quilômetros de engarrafamento nos começos de noite paulistanos, nem que fosse com o uso da força. A Polícia Militar atendeu prontamente os jornalões, com a velha ferocidade dos capitães de mato. Foi aí que o jogo mudou: não só o Estadão e a Folha tiveram que fazer a “autocrítica” que tanto cobram de outros atores (e é raridade na imprensa brasileira). O verborrágico Jabor teve que fazer genuflexão para se desculpar, com uma humildade calculada milimetricamente.
As cenas de pancadaria fizeram com que o movimento crescesse não só em São Paulo, como em todo o país (particularmente nas capitais e nos maiores centros urbanos). Fez também com que outros atores entrassem em cena, o que mudaria os rumos do movimento e do país. As direitas começaram a ganhar as ruas, que até então eram monopolizadas pelas esquerdas. No lugar do protesto contra o aumento da passagem e cobrança por melhoria no serviço público, entrou a PEC 37, uma proposta de emenda à Constituição que tiraria do Ministério Público de investigações criminais. A “corrupção” substituiu os 20 centavos nos cartazes e a grande imprensa brasileira, que é historicamente pouco simpática a manifestações populares e movimentos reivindicatórios, passou da crítica ao apoio, abrindo amplo espaço em todos os veículos.
Uma década depois, o significado das “jornadas de junho”, como ficaram conhecidas, ainda está em disputa. O debate sobre junho de 2013 rendeu milhares de páginas de ensaios, artigos e livros sobre os seus significados (alguns deles serão o tema da segunda parte desta discussão, aqui no Gorgonzola). Do “despertar do gigante” à guerra híbrida, passando por várias tonalidades, a falta de consenso sobre o significado das jornadas é a mesma daquele 17 de junho de 2013, que dividiu manifestantes entre ir para a Gleba Palhano ou para o Centro Cívico. Depois de 10 anos, a encruzilhada continua diante de todas as gerações, tanto as que foram para as ruas, quanto as que acompanharam da sacada.
Fábio Silveira

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