O "nazi-gate" de Arapongas
- Fábio Silveira
- 11 de out. de 2023
- 3 min de leitura

Reprodução das redes sociais
A imagem de estudantes do ensino médio de um colégio estadual de Arapongas num ambiente decorado com suásticas e com um boneco representando Adolf Hitler repercutiu na imprensa nesta semana. A cena fazia parte de uma aula de história, que tratava da Segunda Guerra Mundial, segundo informado pela Secretaria Estadual de Educação do Paraná, que em nota publicada pelo G1 também informou que o caso seria investigado. O incômodo das autoridades da educação, porém, só foi externado depois que o caso começou a repercutir na imprensa. Até então, o perfil do Instagram do Núcleo Regional de Ensino de Apucarana (que também é responsável por Arapongas) tinha apoiado uma postagem feita na rede social da própria escola tratando da atividade, com o botão de “curtir”. A postagem que deu origem à polêmica foi apagada, mas na internet, como todo mundo sabe, o print é para sempre.
Também na reportagem do G1, há a informação de que os estudantes entrevistaram a filha de um soldado nazista, que lutou na Segunda Guerra Mundial. A senhora mora em Rolândia. A entrevista foi gravada em vídeo, mas até o momento a imprensa não teve acesso e por isso mesmo não divulgou o conteúdo da entrevista. Fazendo um exercício de imaginação, pode ser que a senhora tenha dito aos estudantes que se envergonha do fato de seu pai ter lutado a favor do nazismo durante a Segunda Guerra e que reprova essa mácula no passado da família. Nesse caso a atividade teria um tom educativo. Mas a imagem de dois estudantes vestidos de preto e que pela posição parecem guarda-costas do boneco que representa Hitler, além das suásticas decorando o cenário, dão uma impressão de apologia.
Além do conteúdo da entrevista em vídeo, seria bom que a professora responsável pelo trabalho ou a direção da escola viessem a público dar explicações.
Sem julgar escola e professora por um conteúdo e explicações que ainda não foram tornadas públicas, há uma informação que precisa ser ressaltada: o colégio que foi palco do episódio é uma daquelas que durante a triste Era Jair Bolsonaro se tornou “cívico militar”, essa aberração que um governo simpatizante do nazi-fascismo criou, na tentativa de militarizar a juventude. Essa informação aumenta o mal estar com a foto dos estudantes junto com as suásticas.
Antes de prosseguir, cabem parênteses: chamar Bolsonaro de simpatizante do nazi-fascismo não é retórica. O próprio já fez inúmeras demonstrações públicas de simpatia ao nazismo. Uma delas: recebeu fora da agenda uma líder da extrema-direita alemã, que ainda por cima era neta de um ministro de Hitler.
A questão é que os colégios cívico militares dão ênfase à disciplina. É sabido que organizações militares se baseiam na disciplina e na hierarquia. E onde há hierarquia e disciplina, não há debate. Logo, se os alunos de colégios cívico militares estão sendo formados dentro desses parâmetros, não é exagero imaginar que o prato – no caso, o trabalho – tenha sido engolido da forma que foi servido, sem muita reflexão. Por isso é importante saber o conteúdo da fala da filha do soldado nazista que foi entrevistada pelos estudantes.
O episódio, de qualquer forma, chama atenção para a necessidade de reverter essa ideia esdrúxula de militarizar escolas e com isso enfrentar o avanço de movimentos nazi-fascistas no Brasil, que segundo a pesquisadora Adriana Dias, morta em janeiro deste ano, cresceu muito durante o governo Bolsonaro. Entre as contribuições que Dias fez com suas pesquisas, está por exemplo, a identificação da relação de Bolsonaro com grupos neonazistas, cujas células se multiplicaram durante a presidência do Jair.
Acabar com essa ideia doentia de militarizar escolas é um passo importante para derrotar o neonazismo no Brasil.

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