O “inimigo” é o mesmo de sempre
- Fábio Silveira
- 4 de ago. de 2023
- 5 min de leitura
Uma cena de Tropa de Elite (2007), que retrata parte do treinamento do BOPE, a força especial da Polícia Militar do Rio de Janeiro, sintetiza a visão da própria polícia sobre a sociedade em que está inserida e da elite à qual serve. A tropa marcha dentro de um mangue e o policial que a lidera pergunta: “homens de preto qual é sua missão?” A tropa, em coro, responde: “entrar pela favela e deixar corpo no chão”. A frase ajuda a entender o recorte de classe da violência policial no Brasil, que na virada de julho para agosto ganhou capítulos novos e trágicos com massacres na Bahia, que está no quinto mandato consecutivo do PT (19 mortes em ações da PM entre os dias 28 e 31 de julho); São Paulo, que depois de 28 anos de gestões do PSDB, agora tem um governo de extrema-direita comandado pelo bolsonarista Tarcísio de Freitas (16 mortes na Baixada Santista numa ação com ares de vingança depois do assassinato de um policial da Rota); e Rio de Janeiro, governado pelo também bolsonarista Cláudio Castro (10 mortes numa operação no Complexo da Penha.
A cena do filme ilustra, a partir de critérios sociais e espaciais quais vidas não valem nada e quais corpos podem ser abatidos – isso na visão da polícia. A “missão” assumida pelos “homens de preto” não é entrar de forma violenta no Leblon, nos Jardins (se fosse em São Paulo) ou nos condomínios de luxo e bairros de classe média de Londrina e pelo país afora. E não que o CEP seja indicador de respeito às leis. Volta e meia a PF prende grandes traficantes (grandes mesmo) em condomínios de luxo em cidades brasileiras, como foi no caso da prisão de um homem conhecido como Cabeça Branca, um dos barões do tráfico. E sem deixar nenhum corpo no chão.
Questão de CEP
Ok, Tropa de Elite é um filme. Ficção inspirada na realidade nua e crua contada no livro Elite da Tropa (2006), do antropólogo Luiz Eduardo Soares e dos ex-policiais André Batista e Rodrigo Pimentel, que trabalharam na PM do Rio de Janeiro. Mas mesmo se fosse exclusivamente a mais delirante ficção, a realidade insiste em confirmar o que foi retratado no filme. Dez anos depois do lançamento do primeiro episódio do filme pelo tenente-coronel da PM paulista, Ricardo Augusto Nascimento de Mello, que numa entrevista concedida ao UOL em 2017, disse em tom de “sincericídio” que a abordagem policial que é feita nos bairros nobres tem que ser diferente da que é feita nas periferias. “É uma outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá. A forma de abordar tem que ser diferente. Se ele (policial) for abordar uma pessoa (na periferia), da mesma forma que ele abordar uma pessoa aqui nos jardins (região nobre de São Paulo), ele vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado”, disse o oficial ao UOL. Sabe como é, a lei é para todos...
O que Nascimento de Mello falou é odioso, mas é verdade. Em 2020 a PM foi chamada para atender uma ocorrência num condomínio de luxo. Na oportunidade um vídeo sobre a abordagem viralizou na internet. Nele, o homem humilha o policial com palavrões, enquanto aparentemente fala com alguém no telefone. Insinuando estar em contato com o secretário de Segurança, o homem dá uma “carteirada” enquanto xinga o policial. A certa altura ele esbraveja: “você vai se fuder, seu merda, você não me conhece. Você pode ser macho na periferia, mas aqui você é um bosta. Aqui é Alphaville, mano”. A frase mistura o “sabem com quem está falando” com o discurso do oficial que em 2017 disse que existem abordagens diferentes para CEPs diferentes.
Tiros de fuzil e granadas
Não se trata de uma ação da PM, mas o caso do presidente do PTB e ex-deputado federal Roberto Jeferson é eloquente. Em 24 de outubro do ano passado, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, ele recebeu policiais federais que foram cumprir um mandado de prisão com 50 tiros de fuzil e três granadas. Se rendeu depois de horas de negociação sem um único arranhão. Para coroar, viralizou o vídeo de um policial federal “negociando” a rendição do terrorista e fascista em tom de camaradagem e rindo dos policiais que fizeram a primeira abordagem e foram recebidos a tiros e granadas.
A questão não é reivindicar para os condomínios fechados e bairros nobres o mesmo tipo de atendimento que a PM oferece nas quebradas. Pelo contrário, o respeito ao cidadão deveria ser isonômico. Não deveria existir um tratamento para os VIPs e outro para os mortais – quanto mais periféricos e pobres, mais mortais. O assassinato do policial é um crime inaceitável, inclusive porque além de policial, trata-se de um trabalhador, pai, filho, marido, irmão. Um ser humano, enfim.
Mas isso não justifica que em pleno Século XXI regressemos ao Código de Hamurabi e à Lei de Talião (olho por olho, dente por dente), porque além de não resolver o problema da violência numa sociedade com profundas desigualdades, vitimiza principalmente os mais frágeis e que não têm qualquer relação com o assassinato do policial, que foi a origem da retaliação policial.
"O inimigo agora é outro"
A recepção a Tropa de Elite surpreendeu o diretor José Padilha e ajudou a tirar o “tio do pavê” do armário e escancarar as inclinações fascistas que nos levaram à tragédia bolsonarista. Involuntariamente, Tropa de Elite contribuiu para legitimar a violência policial. Em novembro de 2007 a imprensa noticiou que Policiais Militares de Pernambuco chegaram numa camionete do Batalhão de Choque para controlar um motim num presídio de Recife, ao som da música do Tihuana que era tema do filme. Como se fosse uma ação motivacional. “Tropa de elite, osso duro de roer / pega um, pega geral e também vai pegar você”, diz o refrão.
Parte da imprensa teve papel importante nessa legitimação. Em outubro de 2007, na época em que revistas semanais tinham muita influência, a revista Veja publicou uma capa sobre o filme, em tom de aprovação: “O primeiro super-herói brasileiro – ele é incorruptível, implacável com bandidos e espanca políticos degenerados”, diz o título. Ao lado, uma foto do protagonista do filme, o capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura.
A repercussão inesperada levou Padilha a fazer o segundo Tropa de Elite, na tentativa de problematizar a violência policial nas periferias. O subtítulo do filme lançado em 2010 é “o inimigo agora é outro” – embora o noticiário deixe claro que o “inimigo” é o mesmo de sempre: os corpos das periferias que no entendimento dos homens de preto devem ser deixados pelo chão. Depondo numa CPI, capitão Nascimento diz: “o que eu posso afirmar é que o policial não puxa esse gatilho sozinho”. E não puxa mesmo.
A polícia é um braço do Estado, embora às vezes pareça ter vida própria, visto que os massacres acontecem sob governos da esquerda à extrema-direita, como ficou demonstrado nessa semana. Os policiais são trabalhadores e talvez muitos deles não percebam que a mesma política que os faz matar também os expõem à morte. Tudo isso para controlar os pobres e manter os privilégios das elites. Elites obscurantistas, escravagistas e tacanhas, que se forjou sobre o genocídio indígena e séculos de escravidão.
No Manifesto Comunista, escrito no Século XIX, Marx e Engels falam que o Estado moderno é o "comitê de negócios da burguesia". A teoria política liberal, construída nos Séculos XVIII e XIX, defende a tese da neutralidade do aparato estatal a mediar os conflitos entre as classes sociais. O Brasil do Século XXI não cansa de dar razão ao Manifesto. A ação das PMs escancara essa realidade.

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