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[Não tenho guardado quase segredo algum...


Não tenho guardado quase segredo algum é cria minha, de Célia Musilli, Samantha Abreu e Edra Moraes para o projeto Betoneira/2020


Não tenho guardado quase segredo algum

Exposta

O sol brilha na minha cara, mas não aquece

nem a memória de dias não tão remotos

traz um bafo que seja de alento

Suspiro

Pensei que a chuva caída outro dia

bem fina

me trouxesse de volta

Alice, Hela, Perséfone, Isis

queria mesmo, Lâmia,

mas que nada.

Veio Calipso e sugeriu pra me esconder um pouco Em síncope espatifei nossos dias pra ela (tadinha, socada naquela gruta não sabia da Quarentena)

Não ficou. Ainda quis me levar para seus jardins, salões imensos mas como não tenho paciência para fiar... pude voltar para estradas que não podemos percorrer

e as armadilhas da vida me puseram exilada na cama e andei confins em meu coração onde desde muito guardei seu cheiro, seu beijo e olhar e vieram as quietudes de seus sussurros e bem mais

**

seu sorriso equivale a mil sóis

atrito

a arte de procurar a Via Láctea e encontrar sua cabeleira grisalha

Saturno da minha vida

Vênus, depois estrela cadente

o brilho que escapou há dez mil anos-luz

...

transparência

seria aquele encontro na feira entre tomates e girassóis?

artesanato itinerante

passeio terrestre como homem e mulher

...

saltamos tantas vidas numa só vida

foi perigoso

a viagem na nave de ouro sujeita a explosões

e à queda no mar

...

mediterrâneo

estivemos tão sós quando nos encontramos

nada soubemos da parceria sideral que subiu montanhas

...

memória, cometa da loucura

fogo fátuo das cinzas da cabeleira de Saturno

o planeta dos anéis em seus cabelos

paixão grave e taciturna

...

amor que esconde o sol do dia que não foi

verão abortado

a sina das quatro estações

Vivaldi ao piano no fundo de um bar

cenário parcial de seu sorriso

....

no giro da galáxia

o encantamento eterno

entre os dentes

...

***

Mulher que sempre se entrega aos sóis e vias

guardei em nós os segredos do tempo, algo de passagem,

a dimensão exata de mapas do céu tatuados na sua pele, suas veias me mostrando os caminhos dos impérios, dos reinos imortais, das cruzadas descobrindo mistérios de mim. Um bárbaro invadindo meu peito em busca do que eu não revelo, expondo costelas e nervos ao calor apaixonado dos encontros.

De todos os planos onde já fui deusa, de todas as rotas e planetas que já percorri, seu corpo – o seu corpo, sim – me toma pelo mistério de uma ilha desconhecida, uma terra sem lei, uma fenda na terra por onde podemos encarar o fervor do abismo e saltar sem chegar ao fim da queda, saltar rumo a outro universo: sem mapas ou satélites, onde haja apenas sua língua sussurrada entre os dentes quando à noite inauguramos linhagens.

****

Frações do universo no ritmo dos seus quadris

fractais de amor, são sempre o mesmo amor

desejos repetidos e repicados nas partes do teu corpo

da mínima célula até tuas coxas como um código

No avesso de Calipso quanto mais me revelo

mais misteriosa sou ao teu olhar

Há um atrito de palavras, e uma arte na transparência

que ao invés de revelar, oculta

enquanto o universo vira e via láctea

às vezes é o meu umbigo

palavra ambígua da minha língua que desliza

acentuando tua glande

prepúcio do entardecer

Atrito e arte em viver


∙ *Chris Vianna

∙ ** Célia Musilli

∙ *** Samantha Abreu

∙ **** Edra Moraes

∙ A ilustração é de Dani Stegmann

∙ Designer: Marco Tavares

∙ Voz: Chris Vianna

∙ Edição de Duda Victor





 
 
 

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