[Não tenho guardado quase segredo algum...
- Christine Vianna

- 14 de jul. de 2023
- 3 min de leitura
Não tenho guardado quase segredo algum é cria minha, de Célia Musilli, Samantha Abreu e Edra Moraes para o projeto Betoneira/2020
Não tenho guardado quase segredo algum
Exposta
O sol brilha na minha cara, mas não aquece
nem a memória de dias não tão remotos
traz um bafo que seja de alento
Suspiro
Pensei que a chuva caída outro dia
bem fina
me trouxesse de volta
Alice, Hela, Perséfone, Isis
queria mesmo, Lâmia,
mas que nada.
Veio Calipso e sugeriu pra me esconder um pouco Em síncope espatifei nossos dias pra ela (tadinha, socada naquela gruta não sabia da Quarentena)
Não ficou. Ainda quis me levar para seus jardins, salões imensos mas como não tenho paciência para fiar... pude voltar para estradas que não podemos percorrer
e as armadilhas da vida me puseram exilada na cama e andei confins em meu coração onde desde muito guardei seu cheiro, seu beijo e olhar e vieram as quietudes de seus sussurros e bem mais
**
seu sorriso equivale a mil sóis
atrito
a arte de procurar a Via Láctea e encontrar sua cabeleira grisalha
Saturno da minha vida
Vênus, depois estrela cadente
o brilho que escapou há dez mil anos-luz
...
transparência
seria aquele encontro na feira entre tomates e girassóis?
artesanato itinerante
passeio terrestre como homem e mulher
...
saltamos tantas vidas numa só vida
foi perigoso
a viagem na nave de ouro sujeita a explosões
e à queda no mar
...
mediterrâneo
estivemos tão sós quando nos encontramos
nada soubemos da parceria sideral que subiu montanhas
...
memória, cometa da loucura
fogo fátuo das cinzas da cabeleira de Saturno
o planeta dos anéis em seus cabelos
paixão grave e taciturna
...
amor que esconde o sol do dia que não foi
verão abortado
a sina das quatro estações
Vivaldi ao piano no fundo de um bar
cenário parcial de seu sorriso
....
no giro da galáxia
o encantamento eterno
entre os dentes
...
***
Mulher que sempre se entrega aos sóis e vias
guardei em nós os segredos do tempo, algo de passagem,
a dimensão exata de mapas do céu tatuados na sua pele, suas veias me mostrando os caminhos dos impérios, dos reinos imortais, das cruzadas descobrindo mistérios de mim. Um bárbaro invadindo meu peito em busca do que eu não revelo, expondo costelas e nervos ao calor apaixonado dos encontros.
De todos os planos onde já fui deusa, de todas as rotas e planetas que já percorri, seu corpo – o seu corpo, sim – me toma pelo mistério de uma ilha desconhecida, uma terra sem lei, uma fenda na terra por onde podemos encarar o fervor do abismo e saltar sem chegar ao fim da queda, saltar rumo a outro universo: sem mapas ou satélites, onde haja apenas sua língua sussurrada entre os dentes quando à noite inauguramos linhagens.
****
Frações do universo no ritmo dos seus quadris
fractais de amor, são sempre o mesmo amor
desejos repetidos e repicados nas partes do teu corpo
da mínima célula até tuas coxas como um código
No avesso de Calipso quanto mais me revelo
mais misteriosa sou ao teu olhar
Há um atrito de palavras, e uma arte na transparência
que ao invés de revelar, oculta
enquanto o universo vira e via láctea
às vezes é o meu umbigo
palavra ambígua da minha língua que desliza
acentuando tua glande
prepúcio do entardecer
Atrito e arte em viver
*link do vídeo: https://youtu.be/nclPFZZvGJE
∙ *Chris Vianna
∙ ** Célia Musilli
∙ *** Samantha Abreu
∙ **** Edra Moraes
∙ A ilustração é de Dani Stegmann
∙ Designer: Marco Tavares
∙ Voz: Chris Vianna
∙ Edição de Duda Victor


![gorgonzola-[Recovered].png](https://static.wixstatic.com/media/b5bc38_9ce52f5d276840f68ec10ce28652fcb2~mv2.png/v1/fill/w_260,h_229,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/gorgonzola-%5BRecovered%5D.png)


Comentários