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Não acabou em pizza


Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado


Como estamos acostumados aos acordos pelo alto na política brasileira, a tendência é sempre de acreditar que CPIs acabam em pizza. É verdade que algumas acabam no forno, mas não é sempre que isso acontece. A CPMI do 8 de janeiro, encerrada nesta semana, com um relatório de mais de mil páginas, o pedido de indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), oito militares de alta patente como mentores intelectuais da tentativa de golpe de estado, além de financiadores e outras figuras graúdas, certamente não teve seu encerramento na pizzaria.


Pode ser que Bolsonaro e os generais Braga Neto e Augusto Heleno, entre outros fardados, não acabem seus dias na cadeia, o que seria merecido. Mas se não for esse o desfecho da história desses personagens, o problema não seria da CPMI, que já cumpriu o seu papel, mas do Ministério Público Federal e do Poder Judiciário ou de quem mais decidir não levar o caso adiante. Senadores e deputados chegaram até onde poderiam chegar com uma CPMI.


Independentemente de qual seja o desfecho, a CPMI cumpriu o seu papel. Em primeiro lugar porque o indiciamento de oito generais por tentativa de golpe de estado, se não for inédita é rara na História do Brasil. A cena que simboliza essa necessidade histórica de o Brasil cobrar explicação de golpistas e puni-los, foi protagonizada pelo general Augusto Heleno, que embora tenha sido aplaudido por parlamentares da extrema-direita, também teve que ouvir o que não gostaria. Como por exemplo, as suspeitas que pesam sobre sua atuação na Minustah, a Missão de Paz da ONU comandada pelo Brasil. Heleno foi um dos comandantes da missão e foi sob o seu comando que aconteceu o massacre de Cité Soleil, a maior favela do país.


Além da Minustah, o general teve que ouvir perguntas duras e mostrar toda a sua pulsilanimidade, mentindo e se desmentindo, voltando atrás em muitas declarações golpistas que dera nos anos no poder. Só essa cena já justificaria a existência da CPMI. Oito indiciamentos de generais e mais o de Bolsonaro, são muito pouco para cobrar a dívida histórica que os militares têm com a sociedade brasileira. Mas cena que escancarou a pequenez de Heleno e o relatório indiciando os generais de Bolsonaro são carregados de simbolismo.


No momento em que os primeiros executores da tentativa de golpe – o bando de fascistas que acampou na frente do quartel do Exército, em Brasília, e invadiu e quebrou os prédios dos três poderes – estão sendo condenados pelo Supremo Tribunal Fedearl (STF) com penas duras, porém necessárias, é importante lembrar que as punições precisam chegar muito além desses peões, que foram usados e abandonados pelo bolsonarismo. Seguindo na metáfora do xadrez, as punições precisam atingir também bispos, torres e cavalos, aqui representados por financiadores, incentivadores e políticos. E também atingir ao rei e à rainha, que são Bolsonaro e seus generais golpistas.


Menos que isso é semear a próxima tentativa de golpe, que pode ser bem ou mal sucedida. Se qualquer tipo de acordão ou anistia aos golpistas acontecer, aí sim teremos pizza. Mas aí já não seria mais culpa da CPMI.

 
 
 

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