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Na peleja com necas de pitibiribas

Atualizado: 29 de nov. de 2023


Você não tem muita escolha se você nasceu num lugar como o interior profundo do Paraná. Ou se rumina bovinamente o pasto da rotina ou se está condenado de alguma maneira a enfrentar frontalmente o niilismo ou pelo menos a um nível de descrença que chega a afetar o seu fígado (os antigos acreditavam que era nesse órgão que se processavam as emoções). Explico ou pelo menos assim tento:

Há pouco mais de meio século nasci na enfermaria do Hospital Santa Mônica em Apucarana, aqui perto de Londrina (esse hospital não existe mais). Meu pai era um ex-bancário que se aventurava então no ramo dos secos e molhados e minha mãe embarcou na linhagem dos que na família viram no magistério uma forma digna de construírem suas vidas. Uma maldição às vezes percorre várias gerações.

Uma lembrança muito vívida dessa fase eram as Kombis. Meu pai tinha duas que serviam para levar as entregas das compras que os fregueses que vinham dos sítios das redondezas faziam em sua mercearia – em grande parte eram fregueses da colônia ucraniana que ficava na zona rural no entorno da cidade. Rurilka e cobaçá (pinga com lingüiça) é o que a clientela pedia para limpar o pó da garganta. O som da mercearia era uma algaravia que misturava anedotas em ucraniano com gargalhadas em português.

Um tio meu muito querido trabalhava junto com meu pai. Eram sócios. Com a indenização do banco meu pai montou o negócio oferecendo-lhe sociedade – a parte do meu tio era o know how que ele trazia de sua experiência como gerente de um supermercado da cidade. Deu muito certo e a sociedade com o tempo rendeu mais uma filial e um açougue. Foi nessa época que comecei a estudar num colégio mantido por freiras e me lembro de uma vez que fomos levados até a praça central da cidade para saudar o presidente da república – Apucarana foi o centro da repressão no norte do Paraná por conta do quartel do exército que ela abrigava. Ernesto Geisel passou por ali de vidros fechados dentro de um enorme veículo preto. A molecada chacoalhando bandeirinhas de papel que àquela altura estava todas amarrotadas e distorcidas. Foi minha experiência inaugural com o não sentido. Não vi nada. Aquilo tudo era nada. Um vazio. Oco. Preferiria ter ficado no colégio porque pelo menos tinha a hora do recreio. Foi uma tarde sem brincadeiras, sem comida e sem sentido.

Devo ter contado para o meu tio depois quando minha mãe me levava até a mercearia porque a noite ela ia para a faculdade que ficava numa cidade vizinha. Ela ia para as aulas numa Kombi também que fazia lotação com o pessoal que estudava nessa faculdade. Graduação em Geografia. Lembro que era no terceiro intervalo comercial da novela das dez (Gabriela) que meu pai me chamava para buscarmos minha mãe. Fazíamos o trajeto com a Kombi da mercearia e minha mãe sempre estava esperando com alguma surpresa que ela trazia da cantina. Por mais que eu tivesse jantado com meu pai eu adorava jantar mais uma vez tardão com minha mãe. Porque aí a casa estava completa. Meus pais e meu irmão. O cachorro e uma algazarra de galinhas, marrecos e patos que meus pais criavam no nosso quintal que era imenso – o depósito da mercearia ficava num barraco construído no quintal de casa. Tudo então podia fazer algum silêncio e se recolher para o mundo onírico.

Num delírio de febre uma vez vi uma imagem da Virgem Maria no pé da minha cama. Uma imagem que nunca existiu em casa. Passei o resto da minha infância tendo medo daquela noite. Talvez por isso eu prefira escrever durante as madrugadas. Porque o sono vem de qualquer forma, mas consigo mantê-lo numa intensidade intermediária entre a inconsciência e a vigília. Uma dimensão própria do devaneio. Da febre. Porque é aí que as imagens aparecem. Nunca contei isso pra ninguém.

Meu tio passou por diversas experiências que lhe deixaram muito confuso e a sociedade com meu pai começou a estremecer. Não me sinto autorizado a falar o que quer que seja do que ele viveu a partir de então nesse período porque certos espinhos são fantasmas cujas feridas atravessam gerações. O começo de uma reaproximação de meu tio com meus pais aconteceu quando ele então enfrentou o não sentido da morte de um filho natimorto. A sociedade se foi e então as Kombis desapareceram de nossas vidas. Foi como se eu tivesse dado adeus a um mundo que tinha sua própria pulsação e de repente tivesse entrado em colapso. Dessa época muitas imagens me habitam: o bêbado do bairro que roubava pães da mercearia, as Kombis – gostava de deitar na parte detrás dos bancos porque o barulho do motor me dava sono e me acalmava. A casa da minha avó que tinha um sótão com o quarto do meu tio (na verdade ele havia sido levado pela repressão durante a ditadura porque fazia parte do grêmio estudantil de seu colégio; assim que o libertaram ele ficou uns dois meses escondido no sótão da casa que depois transformou em definitivo no seu quarto). Era lá que ele pintava suas telas e uma vez me deu um estojo com guaches para que eu pintasse as minhas. A gente nunca esquece tios que pintam telas, cantam tango e fazem bagres fumarem (toda vez que íamos pescar, quando alguém pegava um bagre logo todos pediam para ele fazer essa crueldade).

Meu tio se foi. 42 anos. Um coração seresteiro e passional estraçalhado por tanto tango e os muros do não sentido de um lugar hostil à sua sensibilidade. Se tivesse a sorte de encontrar respaldo para sua necessidade de expressão e as coisas teriam sido menos trágicas. Apucarana foi hostil com as cores, o espírito libertário, os tangos e os bagres que fumavam. O não sentido havia vencido e encerrado essa etapa. Lembro-me de ir visitá-lo já no hospital e ele me passar uns trocados. “Vai e me traz um cigarro”. Olhei-o do fundo do abismo do meu pasmo. “Isso tudo aqui não tem mais sentido, a gente sabe o que vai acontecer”. Fui e fiz o que ele me pediu. Foi um grande impasse moral pra mim. Mas fui e fiz. Algum tempo depois aconteceu o que sabíamos que iria acontecer. Essa é uma das cenas mais fortemente impressas em minha memória. Eu já era adolescente então. Dessa época falta eu contar que eram dez tios na casa da minha avó materna. Dez. Isso era muito legal porque significava uma casa de avó cheia de primos e tios e mais amigos dos tios. Esse meu tio do qual falo aqui em especial é o que me iniciou no confrontou com o não sentido. Aquilo que Nietzsche talvez chamasse de força. Aquilo que nos faz mover o pensamento. Carrego comigo até hoje as cores daquele estojo com potes de guache.

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