Força na peruca
- Silvio Demétrio
- 28 de set. de 2021
- 4 min de leitura
por Silvio Demétrio

Alguém que ocupa um cargo público posta uma foto numa rede social na qual se apresenta como participante de um protesto anti-democrático. Essa pessoa não é alguém protegido pelo anonimato do cidadão qualquer. Ela é representante de um poder, portanto pessoa pública. Não fosse somente isso, ela é uma juíza. Espera-se de quem ocupa um cargo assim o zelo por sua imagem pública. Sua isenção, principalmente perante a esfera pública, é um dos pilares do poder judiciário que ela representa. Não bastasse a exposição reprovável, o contexto é o de uma manifestação que afronta diretamente a corte máxima do poder judiciário brasileiro, o Supremo Tribunal Federal. Algo que mesmo para um cidadão comum implica em grave infração segundo a constituição que rege o país. Quanto mais para um magistrado. Pega mal. É feio. Isso lembra, por exemplo, certo militar “bunda suja” que foi julgado e expulso da corporação porque resolveu reivindicar aumento do soldo segundo a metodologia dos incidentes que marcaram o fim da ditadura militar no país e que ficaram conhecidos como o episódio do Rio Centro. Militar que vai contra a própria corporação quebra a hierarquia. Abafaram o caso e aposentaram o insano promovendo-o a capitão e deixaram o caso pra lá. Só o corporativismo nos une. Agora a juíza se sentiu ferida em seu narcisismo porque um jornalista divulgou a imagem que ela mesma publicou na internet e que a liga a uma manifestação anti-democrática contra o STF. E lavra B.O em delegacia. A velha e senil sanha do “você sabe com quem você está falando?”!
Os tempos da intimidação a jornalistas voltaram, vamos gozar – parafraseando o título daquela peça de teatro que ficou em cena por anos com John Hebert e que depois foi vertida para a grande tela. O que a incauta juíza não percebe é que com sua atitude vazia ela assevera o fato que participou da manifestação de fato. Ela confessa que feriu a constituição. É caso de se levar ao próprio STF e aos órgãos que zelam pelo decoro e pelas boas práticas do judiciário (aonde está você OAB?). A maneira pela qual se corrói o estado de direito democrático é exatamente a leniência com essas faltas mesquinhas e arroubos de quem se acha detentor de privilégios porque faz parte de algum poder instituído. O narcisismo ferido da juíza de peruca significa a mazela de uma sociedade cindida desde a abolição da escravatura que não aboliu as estruturas profundas que separam privilegiados de despossuídos. É a sociedade do judiciário de casta. Dos palanques e plataformas políticas estelionatárias. Das políticas econômicas geridas por bookmakers de inconfessáveis motivações não republicanas (notaram como nunca mais ouvimos falar do Pré-sal? – Ele desapareceu porque foi passado nos cobres por esses mesmos bookmakers). Se a força de Sansão vinha da sua cabeleira, nossa impotência decadente vem da peruca da juíza. É dela que emana aquele cheiro de vômito típico da muvuca de fim de tarde que sobe na 25 de Março e que bota a nu a invisível mão do mercado em Pindorama. A invisível mão dos batedores de carteiras que pululam no centro. Sempre no centro. Nem de esquerda e nem de direita, mas fatalmente ao centro. Lembro que minha mãe sempre me advertia: “se vai passar pelo centro, cuidado com a carteira filho”.
Pobre é a nação cujo eleitor é o cidadão de bem e isentão. Ele é o não culpado porque nada fez. Fascistas o adoram porque seu caminho para o poder é pavimentado pela inércia dessa gente. Quem elege não é o povo fanático das bolhas – desses que botam peruca na esperança de não serem reconhecidos em manifestações histéricas e antidemocráticas. É o imenso contingente anônimo que é presa fácil das flutuações nas intenções de voto. A vedete das eleições sempre é o exército de indecisos. Aquele tipo de gente que fala que não é nem de direita e nem de esquerda. Geralmente depois de eleições como as de 2018 o grupo dos indecisos costuma se transmutar no grupo das Madalenas Arrependidas. É batata. É quase sempre assim. Quase nunca é diferente. Quase. Só o quase nos salva.
E a juíza lendo com lupa para achar qualquer mínimo deslize que implique no seu nome, por que senão “ele vai ver só com quem está falando”. Mas isso que chamavam de jornalista é bicho tinhoso – manobra o léxico pior do que o Garrincha fazia com seus marcadores. É um jeito de escrever que é como o drible da vaca. Faz que pá mas num tchum. Daí pá!
E o Ganchão é muito maior do que tudo isso. Ele é do tamanho da massa de amigos que ele desperta com três palavras e que o admiram – ele fala como se fosse rock’n roll. Tudo se define em três acordes. Sim, ele tem amigos em tudo que é canto do país e que reunidos dariam uma passeata monstro que assustaria qualquer pretendente a Duce de qualquer sertão. Ao contrário da dubeidade de facadas encenadas e de jubas verdes e amarelas de cabelos de nylon, com o Ganchão é tudo preto no branco. Somos todos Ganchão. E já que falei de rock’n roll e que o hipertexto na web me permite colocar o link do que eu quiser, aqui vai um clássico do rock que eu sei que alguém da diretoria do sindicato dos jornalistas do norte do Paraná gosta. Tighten Up Your Wig, com o grupo Steppenwolf. Numa tradução ligeira porém sincera, o título da música vertido para o português dá exatamente o título desse ensaio mínimo no nome e imenso na demonstração de apoio pelo nosso Ganchão. Força na peruca Zé!
Pos scriptum relâmpago: tenho orgulho de ter produzido com uma turma de jornalismo aqui da UEL um jornal laboratório que é uma homenagem ao jornalista José Maschio. O Gancho foi para a internet em 2015 e na época o professor Nilson Lage elogiou o trabalho dos alunos. Aqui está a página no Facebook na qual estão as quatro edições do jornal: https://www.facebook.com/jornalogancho
José Maschio e Nilson Lage – o jornalismo também tem seus gigantes. Viva a memória do professor Nilson Lage!

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