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Formatura: primeira pessoa do plural


Foto: Fábio Silveira


Escrevo este texto poucas horas depois de participar de mais uma cerimonia de colação de grau, a famosa formatura. Desde a minha própria formatura e depois, em minha trajetória como professor, já participei de tantas que até perdi as contas. No extinto curso de Jornalismo da também extinta Faculdade Pitágoras fui homenageado por quase todas as turmas, senão todas. Na UEL já recebi algumas homenagens, a mais recente nas horas que precederam este texto.


Gosto muito do ambiente das cerimônias de colação do grau. O sorriso largo e a alegria genuína de alunos e familiares é o sinal de que a batalha para concluir o curso superior foi vencida – e não é nada fácil. Nas conversas com minha mãe, quando digo que estou corrigindo os trabalhos dos alunos, ouço do outro lado da linha Dona Sirlei falando: “seja bondoso”, como quem dissesse para “pegar leve”. Ela sabe a importância da educação formal e as dificuldades de uma trabalhadora para formar seus filhos.



Foto: Fábio Silveira


Ser homenageado pelos alunos, qualquer que seja a homenagem, é sempre uma grande alegria. Insubstituível. Impagável. É sinal de que de alguma forma a contribuição que me esforcei para dar para a formação deles foi reconhecida.


Mas penso que formatura é algo que deve ser conjugado na primeira pessoa do plural. Não se nega o esforço individual do estudante para fazer trabalhos, pesquisa, atividades acadêmicas, esforço que por vezes toma horas de lazer e avança sobre madrugadas, ocupando o espaço do sono. O esforço coletivo de pais e familiares também não é nada desprezível.


A formação tanto de alunos para exercer suas profissões e dar sua cota de colaboração para a sociedade através do seu trabalho, quanto dos professores para que estejam capacitados para trabalhar na formação das novas gerações, é um ato coletivo. Por isso o nós se impõe. A educação é uma política pública, uma decisão política de uma sociedade para investir seus recursos e formar profissionais que ajudem a desenvolver essa mesma sociedade.




Fim de ano


Era por volta de 18 de dezembro de algum ano na década passada, quando fui aplicar uma prova de exame a um aluno solitário. Constrangido, ele se desculpou por me fazer ir até a universidade tão perto do Natal. Respondi que ele não me devia desculpas, que para mim não tinha problema, o Estado estava me pagando para eu ir até lá. As desculpas eram devidas à sociedade que financia uma universidade pública e que espera que aqueles que conquistaram uma vaga nesta universidade honrem, façamjus ao investimento que a sociedade estava fazendo na formação dele. É disso que se trata.

É por isso que a pessoa a conjugar o verbo formar é a primeira do plural e não a primeira do singular.


O dia seguinte


Foto: Fábio Silveira


Passados os sorrisos e a alegria vem a angústia: agora “só” falta exercer a profissão e essa também é uma questão a ser pensada na primeira pessoa do plural. Desde 2016, quando uma presidente foi afastada sem crime de responsabilidade (e por isso é legítimo falar em golpe), o neoliberalismo ganhou impulso renovado no Brasil. As consequências foram, de um lado o ataque à educação, perpetrado pelo golpista Michel Temer, com a deformação do ensino médio. Saíram cargas horárias de história, filosofia e sociologia, entrou o bolo do pote e “disciplinas” sobre como ficar rico. Saiu o pensamento crítico, entraram os coachs.

Com uma contrarreforma, o mesmo golpista Temer precarizou as relações de trabalho, regredindo à República Velha, nos aproximando da escravidão. O fascista e genocida Jair Bolsonaro aprofundou o desmonte da educação e das relações de trabalho. Nomeou para a Educação ministros para os quais incompetência é uma palavra que não dá conta de mensurar. Ainda não existem palavras para qualificar ministros desqualificados: um, com sobrenome de time argentino, era mau, mas incompetente o suficiente para não conseguir implantar as maldades (ainda bem); outro confundia Franz Kafka com cafta, comida árabe; outro cujo sobrenome virou verbo e sinônimo de fraudar o próprio currículo; outro que abriu o Ministério para que pastores manuseassem verbas e cobrassem propina em barras de ouro em troca de verbas.

No campo da economia, o neoliberal Paulo Guedes, um dos Chicago oldies que amava o ditador sanguinário Pinochet que era amado por Milton Friedman, expoente da Escola de Chicago – mostrando que neoliberalismo e fascismo são dois lados da mesma moeda.


A política do fascista Bolsonaro e de seus aliados nos Estados de sucatear as universidades públicas anda de mãos dadas com a política econômica de Guedes. Para o projeto de um país de monocultura exportadora, universidades são dispensáveis. Além do mais, universidades podem gerar pensamento crítico e trazer ao debate público verdades incômodas e desconfortáveis, capazes de ferir o ego de candidatos a ditador.


Por isso os alunos que colaram grau há poucas horas são não só vencedores, como também sobreviventes (porque também sobreviveram a uma pandemia). Pensando melhor: nós vencemos e sobrevivemos ao fascista e à pandemia. Resistimos para continuar a existir. A questão agora é pensar em como reconstruir a sociedade deixada em escombros pelo bozofascismo. Esse é o nosso novo ponto de partida. Até para que o esforço feito pela sociedade para formar profissionais e manter a universidade tenha sentido e resultados.


Finalizo fazendo minhas as palavras de Hannah Arendt, em um texto da década de 1960, sobre a crise da educação: “a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens. A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum”.

Não sou eu, não são eles. Somos nós.




 
 
 

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