top of page

Eu não sei quando morrerei de novo

Minha avó Maria contava a história de como morreu meu avô Antonio, seu marido, e eu sempre achava a história interessante.


Contava que eram um casal bonito, que se dava bem, se amava e ria muito. Meu avô era mecânico de carros, tinha perto de 40 anos, forte e espirituoso. Numa tarde, saiu pra trabalhar enquanto ela fazia doce de abóbora e o cheiro exalava por toda a casa. Ele, animado, foi dizendo que voltaria logo, pois amava aquele doce. Mas em algum lugar do caminho estacionou o carro, debruçou sobre o volante e deixou o coração parar.

Morreu em um dia bom, com vontade de comer doce de abóbora.


Desde criança eu ouvia esta história e pensava que deve ser muito estranho morrer em um dia bom, assim, do nada. Sequer ter tempo de comer um doce de abóbora.

Penso nisso desde que me explicaram - ilustrativamente - que a gente morre todo dia quando nasce, quando dorme, quando goza, que a gente morre quando ama, sofre e, até, quando é muito feliz. E que em alguma destas vezes a gente morre sem ter chance de voltar.


Mas a morte dos tempos em que escrevo e penso sobre a morte não tem a transcendência poética da 'le petit mort' cotidiana nem a beleza melancólica da história do meu avô.

São outras as mortes de pessoas que - pralém deste meu medo de perder o caminho de volta - pensam em seus doces preferidos milissegundos antes do tiro, antes do riso, do soco, antes do vírus. Hoje, quando a gente sorri pra morte, ela não mais sorri de volta.



__________

Eu trouxe este texto para inaugurar minha participação emotiva aqui neste espaço lindo e doido, que me deixou pra lá de honrada e cheia de frescor.

 
 
 

Comentários


bottom of page