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Escrever é voar

Atualizado: 8 de jun. de 2023

Silvio Demétrio





Desculpem o atraso. A carga dos últimos dias foi demasiada. A soma das mínimas coisas que o cotidiano exige emolduradas pelos arrotos da bestialidade que pretende governar o país de cima de um eterno palanque me deixou “Dazed and Confused”. O peso do chumbo sobre as têmporas. A cabeça como um balão. Um zepelim de chumbo. Vazia e pesada. E é assim que não se voa. Até mesmo quando a carga do que se escreve é densa, escrever é evaporar-se. Tornar-se vapor. Emanar-se desse para outros possíveis mundos. Tornar-se outro por de sobre si mesmo. Uroboros. Devorar-se.

Faltou-me apetite para tanto. O excesso empanturra. Empacha. Constipa. A ressaca de assistir impotente ao banquete servido à estupidez que compareceu em massa à celebração da bestialidade com uma pequena ajuda dos amigos empresários em Brasília, São Paulo e por todo o país. Enfastiado pela banalidade do mal. Mesmo entocado em casa por conta do desencanto e do medo, você acaba deglutindo o enxofre que mina pelas frestas da televisão, pela bandeira na antena do carro do vizinho, pelos fantasmas que habitam esse mundo

espectral da rede mundial de computadores. Uma paisagem sulfúrica e ardente como o submundo das sombras cáusticas, endereço de origem das almas penadas e encostos que formam o séquito pseudo presidencial.

A desrazão toma conta e o ânimo fenece. Daquele jeito que dá vontade de dormir por dias de semanas sem sair da cama. Um luto ubíquo que se manifesta desde o facebook até o martelo dos noticiários de TV, quando não pela fatalidade do telefone. Alguém se foi. Alguém quebrou. Alguém sucumbiu. O “alguém” é o nosso coletivo. Cada vez menos alguém. Cada vez mais nada. Quando assim não somos os nossos possíveis eus deixam de ser como podem porque são cada vez menos múltiplos. Menos possíveis. Desbota-se a riqueza da vida no cinza, no ocre e na indiferença. O mal da vida banalizada como um formulário que se preenche com as próprias sombras.

Então não foi pela falta, mas pelo excesso do nada que encharca o silêncio quando se espera por algo. Descumpri a promessa e ao meio dia só compareceu o sol a pino e a quarta-feira sem pena de mim. Inexorável. Nublei-me então constrangido num pedido de perdão que mastigo por mais de uma semana em vergonha até hoje. Até agora. E só pode existir perdão se não se é vulgar. Por isso quando se escreve para pedir desculpas é necessário que se voe. Tem que ser mais leve que o próprio ar. Conselho de Ítalo Calvino para esse novo milênio. Tudo aquilo que voa vence o peso apenas pela elegância. Despir-se de toda vulgaridade. Encontrar em cada segundo apenas aquilo que arremessa a imaginação para o céu, pois é o ar o elemento que preenche todas as páginas, sejam elas de papel ou luz.

A cada palavra uma distância maior do banal se significa. Palavras servem para se distanciar do vulgar, do lugar-comum, da indiferença. Elas servem para nos levar para outras paisagens. Palavras são como asas que se batem de par em par para com elas ganharmos o azul de nossos voos. Escrever é tornar sutil tudo que padece do peso da matéria. Conceder alma ao frio do chão e à réstia que luta com o horizonte que quer que o sol parta para outros dias. É quixotesco e é a melhor de todas as formas de se desprezar a morte. Escreve-se porque se quer que algo fique.

A propósito e só por curiosidade de quem nunca gostou de falar nem da vida própria muito menos da vida alheia, escrevi esse pedido de perdão ao leitor enquanto o sono não vinha por ter sido raptado pela preocupação que pesa sobre alguma cama de um hospital por demais concreta para permitir que se sonhe e também porque escrever é uma forma de dar-se conta. E eis que aqui no finzinho, quase que como nota de rodapé, lembro ao leitor que a letra de “Dazed and Confused” do Led Zeppelin cuja referência me acendeu a ideia e a lembrança do inominável no primeiro parágrafo é uma ode à mansidão do amor corno. Palavras também servem para vingar. O humor, a mais sublime de todas as armas. Que o peso do desgovernado momento histórico se consuma nas chamas do tempo e que tudo passe. Sempre. Indefinidamente. A trágica alegria sem a qual não há como esboçar nenhum riso que ilumine tanta escuridão.




 
 
 

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