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Elegia à deserção

Atualizado: 17 de jul. de 2021

Todos nós erramos. E erramos feio. E a verdade por trás disso é uma só. Não há reparação. Um movimento é completo em sua duração, indivisível. Algo que só se experimenta como vertigem. O erro é o destino de cada um. Absoluto. O erro é a sina cega. O cansaço. A canga do trágico destino que se desconhece. Humano porque trágico.

Uma espécie singular de ilusão e delírio: toda e qualquer forma de convicção. De certezas. De moral. Quanto mais se deseja a verdade, mais se erra. E que erro considerar isso um equívoco, uma falha. Aqui o erro é o movimento de errância. Deriva. Os desvios que constroem o trajeto do riacho do tempo. Aquilo que se passa entre um instante e outro. Móvel. Fugidio. Aquilo que foge. Escapa. Aquilo que é livre. Inumano. Potência inorgânica.

E se não há outro destino que não o erro? Por que não cantar a única atitude verdadeiramente válida? Só há sentido na deserção. “Desertar” vem de “dirigir-se ao deserto. Tornar o deserto uma ação. Evadir-se em direção ao que não está demarcado. Terra de ninguém. O deserto é o que sobra para além de qualquer fronteira. Lugar nenhum. Utopia. Não lugar.

A solidão é a nação dos que não se enquadram. O afeto do único, do singular, da diferença. O mais corajoso de todos os desertores: o outsider. O bicho esquisito. Aquela presença estranha e incômoda. Indomável. Assimétrica. Sustenida. Santa. Todos os grandes heróis verdadeiramente são desertores.

A suprema coragem de dizer não. Para não se colocar a serviço da morte. Do sarcasmo que assassina as chances de um dia mais leve. Da falta de respeito que faz sangrar. Do desprezo de toda espécie. Da arrogância que envenena. De toda e qualquer militância. De toda burrice. De toda insensibilidade.

Desertar como ato de celebração da vida em sua alegria simples. Todas as crianças são desertoras. Nascem no deserto para depois serem povoadas por monstros como a escola, as doutrinas, os credos e as certezas. Sempre elas. Que todos nós possamos viver de forma mais intensa o erro. Acredito que só se pode articular essa proposição como uma tentativa de crítica depois de uma ano marcado por uma intensidade tão obscura como foi 2016 (esse texto foi publicado em janeiro de 2017 no jornal Relevo, de Curitiba). Escrevo isso ainda dentro dele e apostando todas as fichas que, nesse exato momento no qual você lê aí o que aqui escrevo, esse nefasto tempo já tenha se esgotado definitivamente.

Saudações a todos os que erram. Errar é estar a caminho da surpresa. A nós a poesia – essa deserção do lugar comum para a vida da linguagem como festa. Um brinde a todos os que já desertaram e os quais ainda se deixarão das certezas para embarcar nos ventos do encanto. “Só a beleza nos salvará”.


Esse texto foi originalmente publicado no jornal de arte e literatura Relevo. Conferindo ele agora parece que há quase cinco anos já dava para captar que algo não ia bem com o país.







Silvio Demétrio, Londrina, 14 de julho de 2021.


1 comentário


Christine Vianna
Christine Vianna
08 de jun. de 2023

Leminski disse: nunca cometo o mesmo erro

duas vezes

cometo logo duas três

quatro cinco seis

até esse erro aprender

que só o erro tem vez

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