Again & again: Torquato Neto para sempre
- Silvio Demétrio
- 10 de nov. de 2023
- 3 min de leitura

Não há como não lembrar dele quando chega a passagem do nono para o décimo dia de todo mês de novembro: especialmente no Brasil, quem se interessa por poesia, MPB, cinema e jornalismo cultural vai sempre evocar a memória de Torquato Neto. Espectralmente eternizado pelo olhar de Ivan Cardoso como o Nosferatu tropicalista em Super-8, Torquato Neto estaria completando 79 anos ontem. O dia de hoje marca os 51 anos de sua morte. “Escorpião encravado na sua própria ferida”, “O princípio está sempre no fim, do lado de fora”. Foram muitos os avisos cifrados de que ele abriria o gás no fatídico 10 de novembro.
O arco da poesia tensionado de tal forma a resultar num círculo. Uroboros. Eterno retorno. O Suicídio como engenho pícaro de botar a morte em curto circuito. O Sísifo de Camus como livro de cabeceira. O suicídio como a mais importante de todas as questões da filosofia. É porque pensar é enfrentar a morte. Mesmo que lá do alto a coisa toda despenque feito pedra que rola ladeira abaixo: o castigo eterno de Sísifo por sua astúcia – matar a própria morte em si, mesmo que o arco arrebente e tudo se espatife. Like a Rolling Stone rolando no toca discos do apartamento londrino de Hendrix enquanto Torquato dava tratos à bola:” Let’s Play That Jimmy!”. (está lá no Últimos Dias de Paupéria (2ª edição pela Max Limonad) para quem quiser ler).
Torquato foi o “anjo torto” da Tropicália. Tinha apenas 28 anos quando se suicidou, mas tudo o que produziu é percorrido por uma intensidade que reveste suas coisas com uma

atmosfera densa tal como uma trama do cinema expressionista alemão. É ele que está no canto direito inferior da foto da capa do LP manifesto tropicalista Panis et Circenses. Entre Gal e Tom Zé, Torquato se coloca fazendo pose psicanalítica de quem elabora um enunciado fa-tal.
Foi compositor e parceiro de criação de grandes clássicos da canção de Pindorama. A mais conhecida é Geléia Geral – parceria com Gil, com quem também eternizou Louvação e tantas outras. Dele, Gal gravou Mamãe Coragem , A Coisa Mais Linda que Existe e a maravilhosa Três da Madrugada. Assim como Hendrix, foi uma potência artística e criativa cuja trajetória relâmpago lhes assemelha aos corpos coriscos que cadentes riscam os céus. Fogos fátuos Faíscas da raça. Espíritos de ignição que fazem o tempo do desejo incendiar.
Mais tarde, já de volta ao Brasil depois de seu autoexílio em Londres e Paris, Torquato desfraldou sua bandeira e começou a publicar sua coluna Geléia Geral no jornal Última Hora em seus últimos momentos. Era um “jornalismo de invenção”, como bem observou o crítico Paulo Roberto Pires em artigo publicado ano passado na temperatura que os livros se incendeiam (explico: Quatro Cinco Um é o nome do suplemento da FSP e também dá nome ao livro de Ray Bradburry levado ao cinema por Truffaut e de onde saiu também o nome de uma banda supimpa do final do ´seculo passado aqui de Londrina chamada Farenheit 451). “Jornalismo de invenção” não porque fosse inventado como essa coisa asquerosa chamada fake news, mas “invenção” como as revistas de invenção que pipocaram em nossa sagrada imprensa nanica mais tarde. Torquato Neto criou uma dicção menor para a nossa imprensa. Uma dicção literária que devia infernizar a vida dos censores que não entendiam o que ele escrevia. Espíritos brutos nunca entendem nada de nada. Gente bovina como dizia Torquato: “Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi”.
Foi a partir dos textos publicados na Geléia Geral e de anotações em diários e cartas que

Waly Salomão e a artista gráfica e viúva de Torquato, Ana Maria Duarte, organizaram a primeira edição de “Últimos Dias de Paupéria” – um livro póstumo que se tornou um ícone da contracultura no Brasil. De suas páginas brota a voz de Torquato em toda a sua verve. Um documento de época e o retrato de uma geração que encarou a barra pesada de um regime fascista e de exceção com o escudo das artes e as bênçãos da criação.


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