Crime e castigo
- Fábio Silveira
- 21 de jul. de 2023
- 3 min de leitura

Foto - Joedson Alves/Agência Brasil
O título que pus neste artigo pode gerar uma falsa expectativa: a de que ele precede um texto sobre o romance do escritor russo Fiódor Dostoiévski. É o que chamam de “click bait”, ou em bom português, uma isca de cliques ou “caça cliques”. Se fosse, seria uma estratégia equivocada: a obra de um gigante como Dostoiévski não cabe no lado da internet movido a lacradas e algoritmos obscuros e obscurantistas – sempre em busca dos cliques. De mais a mais, nem tenho roupa para falar de Dostoiévski. Deixo essa tarefa para o Sílvio Demétrio, comandante em chefe deste GorGONZOla ou para o Flávio Ricardo Vassoler, um especialista na obra do escritor russo, de quem ele fala num canal de youtube que vale a pena ser visitado.
A relação entre crime e castigo que pretendo estabelecer aqui é para tratar dessas grandes ironias do Brasil, onde os punitivistas de ontem são os garantistas de hoje, embora seja um garantismo seletivo. Refiro-me à extrema-direita, que tentou dar um golpe de estado no dia 8 de janeiro, mas não conseguiu sustenta-lo por mais de três horas. A prisão dos golpistas (e também terroristas) do 8 de janeiro – alguns se queixaram que foram presos contra a própria vontade (?!?!?!?!) – amoleceu até os corações dos punitivistas mais convictos. Alguns se solidarizaram com os presos da intentona bolsonarista que, segundo seus defensores, estão se alimentando com comida ruim na Papuda.
Pelos 90 centavos pagos por cada marmita, dá para imaginar a qualidade do conteúdo. Ironicamente, quem assinou o contrato para pagar esse valor foi o ex-ministro da Justiça, Anderson Torres, que se tornou secretário de Segurança do Distrito Federal em 1º de janeiro e tirou férias antes do 8/01, deixando uma polícia conivente com a ação dos golpistas. Na casa de Torres foi encontrada a famosa minuta do golpe – o rascunho do texto com o qual Jair Bolsonaro tentaria reverter a derrota nas urnas. Ele ficou preso nos primeiros meses do ano, mas agora responde em liberdade. Nos poucos dias de cárcere (castigo até aqui pequeno para a dimensão do seu crime), Torres sentiu na pele a necessidade do respeito aos direitos humanos para quem tem contas a acertar com a Justiça.
A reivindicação de tratamento VIP aos criminosos do 8 de janeiro, volta e meia reclamado por parlamentares da extrema-direita, mostra o que exatamente os conservadores brasileiros pretendem conservar: uma sociedade de privilégios, que garanta uma justiça diferenciada, conforme o bilhete com que cada um embarcou no Titanic. Para a primeira classe, formada por aqueles que têm dinheiro para atacar o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Morais, no aeroporto de Roma, os bolsonaristas ganharam o apoio dos liberais da turma do “deixa disso”, entrou em campo para acusar a Justiça de “abuso” e reclamar uma pena suave para os delinquentes.
Para quem viaja em terceira classe, nada de botes: a vida dos fanáticos que defecaram na sala do mesmo Moraes, a vida é mais difícil.
A questão é que não há diferença entre delinquentes VIPs e delinquentes de baixo orçamento. Quem obrou no Supremo é tão perigoso quanto quem atacou o ministro em Roma, ou os militares que protegeram os golpistas ou ainda os empresários que financiaram as caravanas a Brasília. A ausência de castigo pode ajudar na escalada: ontem xingamentos e vídeos para lacrar na internet; hoje xingamentos e agressão física contra o filho do ministro; amanhã o ataque pode escalar para algo mais grave. Quem foi capaz de colocar bomba no aeroporto de Brasília (mas felizmente incapaz de detonar o explosivo) pode tomar atitudes ainda mais violentas. E nós vamos esperar que os neofascistas comecem a fazer cadáveres?
O que os liberais que pedem menos dureza contra golpistas VIPs não entenderam é que seja em Brasília ou em Roma, o que a sociedade brasileira está enfrentando neste momento é o neofascismo - em sua forma bolsonarista. Se o golpe tivesse dado certo, estaríamos nesse momento em uma ditadura que, pelo discurso e as práticas que os golpistas demonstraram desde sempre, agiria de forma implacável contra os opositores do regime.
Se no século XX o nazi-fascismo só foi derrotado (mas não suprimido) na guerra, temos a chance de derrota-los neste momento com punições rigorosas, sem o derramamento de sangue que eles teriam colocado em prática, caso não fossem derrotados em outubro do ano passado. Por isso é preciso que os crimes sejam castigados na mesma proporção de sua gravidade.

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