Carne de pescoço (ou: como André Christovam explica o Brasil)
- Fábio Silveira
- 15 de set. de 2023
- 4 min de leitura
Além das sentenças exemplares, que colocam um parâmetro alto para a aplicação de punições nos próximos julgamentos, as condenações dos três primeiros acusados de tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro, definidas nesta semana, no Supremo Tribunal Federal (STF), trazem uma ironia que só os roteiristas de Brasil conseguiriam pensar: o primeiro condenado pela invasão dos prédios do governo federal, Congresso e do próprio STF chama-se Aécio. Não se trata do Neves, o neto de Tancredo, ex-governador de Minas Gerais e candidato derrotado à presidência da República em 2014, quando tudo começou.
O Aécio condenado a 17 anos de prisão, sendo 15 em regime fechado, é muito mais modesto: não pertence a nenhuma oligarquia e nem é herdeiro. Até invadir o plenário do Senado, ele tinha um emprego que se não é comparável às boquinhas que as oligarquias como a do seu xará mineiro costumam conquistar, era confortável, principalmente se considerarmos que a crise provocada pelo neoliberalismo jogou milhões de brasileiros na informalidade dos aplicativos de entrega ou de corridas. Era funcionário da Sabesp, a empresa de saneamento do governo paulista – pelo menos enquanto o governador de extrema-direita, Tarcício de Freitas, (Republicanos), não a privatiza.
Um blues de André Christovam chamado “Carne de pescoço” (que era meu hino do “pescoção”, entre 1997 e 1998, quando trabalhei na Folha de S. Paulo) delimita bem a realidade dos dois Aécios que sintetizam a tragédia brasileira: “tem gente que já nasce com a vida abençoada / se perde um ministério sempre pinta uma embaixada. / os caras do meu time sempre jogam no sufoco / em ceia de Ano Novo comem carne de pescoço”. Aécio, o Neves, jogaria no primeiro time do refrão, os da “vida abençoada” pelas mamatas. Aécio Lúcio Costa Pereira, de 51 anos, demitido da Sabesp depois de produzir provas contra si, com vídeos produzidos durante a invasão criminosa ao Senado e postadas internet afora, joga no time que come carne de pescoço em ceia de Ano Novo.
Em comum, os dois Aécios só têm o golpismo, além de serem personagens da noite sombria em que o Brasil mergulhou nos últimos anos. Foi a recusa em admitir a derrota nas urnas (eletrônicas e comprovadamente confiáveis), pelo neto de Tancredo Neves, que lançou as sementes para um dos principais argumentos do bolsofascismo que nos levou ao 8 de janeiro. O tucano pediu recontagem dos votos, não reconheceu a derrota, esperneou e chorou como o playboy, o agora idoso mimado que é. Mas não levou. Pelo menos no primeiro momento.
O golpismo de Neves deve ter feito seu avô, Tancredo, se revirar no túmulo: ao contrário do Neto, Tancredo resistiu a golpes. Em 1954 ele era ministro da Justiça e participou da última reunião do ministério de Getúlio Vargas, horas antes do suicídio que levou o caudilho da vida para a História e barrou o golpe militar que estava em curso e que aconteceria dez anos depois. O neto mimado conspirou com Michel Temer (MDB) e levou seu partido, o PSDB, para a vanguarda do golpismo traduzido num impeachment sem crime de responsabilidade.
A contestação da derrota e a conspiração para derrubar Dilma Rousseff (PT) foi o começo da noite que sangrou o povo brasileiro e teve como ápice o 8 de janeiro. Depois disso, Temer encheu o governo de militares para compensar a fragilidade política do seu governo; o tuíte do então comandante do Exército, general Villas Bôas, ameaçando o STF e impedindo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de ser candidato em 2018 – o que abriu caminho para Bolsonaro; a tragédia chamada Bolsonaro; 700 mil mortes na pandemia (centenas de milhares delas seriam evitáveis) em nome da “imunidade de rebanho”; ameaça de golpe no 7 de setembro de 2021; ameaça de golpe no 7 de setembro de 2022; ataque terrorista em Brasília no dia da diplomação da chapa vencedora das eleições de 2022; tentativa frustrada de outro ato terrorista, dessa vez seria a explosão de um caminhão de combustível no Aeroporto de Brasília, na véspera do Natal; e enfim, o 8 de janeiro. Tudo para justificar uma “intervenção militar” que manteria Bolsonaro no poder.
O resultado de um governo fascista – que só não conseguiu levar adiante seu projeto ditatorial por pura incompetência – foi de terra arrasada. O autoritarismo que garantiu o aprofundamento do projeto neoliberal trouxe precarização do trabalho e desemprego em índices inéditos. Para “os caras que sempre jogam no sufoco”, no mesmo time em que Aécio Lúcio Costa poderia ser escalado, carne de pescoço seria um luxo. Para muitos desses, a proteína animal na era bolsofascista veio de carcaça de frango (temperada, é verdade) e ossos. Já o “time” do outro Aécio, que também poderia ser chamado “Faria Limers F.C.”, os tempos do fascista Bolsonaro foram de muita fartura. A tal “vida abençoada” a que se refere André Christovam.
Ao contrário do seu xará Neves, Aécio, o da Sabesp, teve a vida arrasada. Deixará a cadeia aos 66 anos de idade – e sem emprego. Se fosse uma peça num jogo de xadrez ele seria um peão. E no xadrez, os peões são sempre os primeiros a “morrer”. Os 15 anos, mais que merecidos, são um sinal de que o sarrafo do STF foi posto no alto. A expectativa é de que quando chegar a vez de julgar cavalos, bispos, torres, rei e rainha, a caneta seja ainda mais pesada. Se para os peões que foram aliciados pela seita bolsofascista a métrica é de 15 anos em regime fechado, espera-se que para os financiadores do golpe o tempo de cadeia não seja inferior a 20 anos. E para os mentores políticos do golpe (Bolsonaro, seus filhos e seus generais de pijama), não menos que 25 anos ou até 30.
A única forma de o Brasil superar a tenebrosa noite dos Aécios é punir os escalões superiores do golpismo com o mesmo peso que os peões estão sendo condenados.

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