Barbie x Barbie
- Fábio Silveira
- 25 de jul. de 2023
- 3 min de leitura

Imagem: divulgação
Confesso que não fui e não pretendo ir ao cinema nem de rosa, nem de azul, nem de verde limão assistir o filme da Barbie. Aliás, não pretendo assistir o filme. E nem é por nada demais, apenas que a boneca e sua história não me interessam. Tenho até amigos que foram... Mas não estou aqui para discutir um filme que não vi, na linha do “não vi, não li, não sei e não gostei”, como costumam fazer os “tudólogos” da internet. O que me interessa é a repercussão em torno do filme sobre a boneca que embalou a infância de gerações de meninas mundo afora. Este texto é um “react”, o gênero da moda na produção de audiovisual para a internet, particularmente no youtube. É o react, dos react. Mas em vez de vídeo, é texto.
Dito isso, em primeiro lugar é preciso lembrar aos mais revoltados com o filme que sempre existe uma opção bem mais simples, que é a de não assistir. Ninguém é obrigado a ir até a bilheteria do cinema comprar o ingresso. Mas esse é um conselho para quem não quer se incomodar. Os indignados de internet estão preocupados com biscoitos. Querem disputar corações e mentes na guerra cultural que travam. Estão em busca de cliques e atenção.
Em segundo lugar também é preciso dizer que, ao contrário do que pretendem os mais lunáticos, está longe de existir uma “camarada Barbie”. Barbie, o filme, não é “comunista”. Faz parte da lógica de funcionamento da indústria do entretenimento usar ideias críticas para esvaziar seu potencial crítico e ainda lucrar em cima dessa ideia.
Masculinidade frágil
Identifiquei basicamente duas linhas de críticas raivosas ao filme: homens reclamando de um suposto “feminismo” da obra e evangélicos indignados porque Barbie não atende aos “preceitos cristãos”. Lá no fim as duas linhas levam ao mesmo lugar, porque tudo acaba em raciocínios do tipo mulheres devem ser submissas e obedecer os homens.
A reação na linha “masculinidade frágil” dialoga com movimentos machistas e misóginos que estão na internet, como os “redpill”, que acreditam que mulheres são interesseiras e que os homens precisam mantê-las sob controle. O nome dado ao digamos, movimento, tem origem numa cena decisiva do filme Matrix (1999): o momento em que Morpheus oferece duas pílulas a Neo. A azul deixaria o protagonista na matrix. Portanto, na ignorância - uma escolha que encerraria o filme ali. A vermelha revelaria “a verdade” a Neo.
Voltando à Barbie, num canal especializado em obras de entretenimento, viralizou um vídeo com dois homens de meia idade – que também poderiam ser da Idade Média – indignados. Eles acusam o filme de “lacrador”, “feminista” e “anti-homem”. Também disseram que não seria um filme para crianças e que retirariam filhas ou sobrinhas do cinema “pelo braço”. Faltou aos “críticos” ler a classificação de Barbie, que é a partir de 12 anos.
Fui checar o motivo da revolta com quem assistiu o filme. A resposta de um amigo que levou a filha ao cinema: “O filme mostra que a Barbie é linda e maravilhosa e que qualquer mulher pode ser a Barbie: preta, japonesa, morena, ruiva, gorda, magra. No filme tem vários tipos de Barbie”. Nada como mulheres empoderadas para tirar o sono de misóginos. Mas tem mais: “...mostra que o Ken é um idiota e todos os Kens, os homens machistas, são idiotas”. Os críticos do youtube dão razão ao filme.
As críticas evangélicas partem da mesma base: mulheres independentes e empoderadas, que “ousam” fazer suas escolhas, ameaçam a lógica de que elas deveriam obedecer seus maridos. Essas críticas vieram tanto de influenciadoras evangélicas quanto de pastores no youtube. Assisti ao react a um vídeo de um pastor reclamando que o filme incentiva as mulheres a não serem mães, como se a maternidade fosse o único objetivo na vida de uma mulher. O conselho final é: “cristãos não devem assistir o filme”.
No fundo, os argumentos, sejam eles misóginos ou movidos a fundamentalismo religioso, são irmãos gêmeos e estão muito próximos de uma extrema-direita que trava guerra cultural até em sonho.
A polêmica coloca de um lado fãs da Barbie, a boneca. Do outro lado da barricada, alguns dos críticos raivosos (nem todos) podem estar mais próximos de outro Barbie, o Klaus. Oficial da SS na Segunda Guerra Mundial. Entre os dois blocos, Hollywood está satisfeito com a propaganda gratuita e o engajamento que também enche salas e bilheterias.

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