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As leituras do junho de 2013

Numa oportunidade o líder chinês Mao Tse-Tung (1893-1976) foi questionado sobre sua opinião a respeito da Revolução Francesa (1789). Respondeu que ainda era cedo para avaliar o evento ocorrido pouco mais de 100 anos antes do seu nascimento. Antes que entre na lista de frases feitas, é preciso dizer que esse relato é uma piada que brinca com a perspectiva histórica de uma civilização milenar. Se o século e meio da anedota seria pouco tempo para avaliar a Revolução Francesa, imagine a década que se passou desde que, em junho de 2013, as ruas foram tomadas Brasil afora. O pouco tempo (pensando em perspectiva histórica) decorrido pode ser um dos elementos que ajude a compreender a dificuldade de um consenso para avaliar o evento. A outra dificuldade nasceu nas próprias ruas, na encruzilhada metafórica que relatei em meu texto anterior, entre desfilar no bairro nobre ou marchar até o centro do poder político.


As chamadas “jornadas de junho” explodiram a partir de uma revolta contra o aumento nas passagens de ônibus na cidade de São Paulo, ecoando mobilizações que vinham desde agosto de 2012 em outras capitais, como Natal (a Revolta do Busão), Porto Alegre, Rio de Janeiro e Goiânia. Na capital paulista foi o Movimento Passe Livre quem convocou as primeiras manifestações. Elas começaram a ganhar o noticiário por volta de 6 de junho. Os transtornos que as manifestações provocavam no trânsito levaram os manifestantes a apanhar: primeiro da imprensa, depois da polícia. Foi nesse ambiente que Arnaldo Jabor, comentarista da Rede Globo, disse que os manifestantes não valiam “nem os 20 centavos” do aumento da passagem. No dia 13, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, os dois principais jornais paulistas, que estão entre os mais importantes do país, fizeram editoriais quase gêmeos, pedindo medidas enérgicas contra os manifestantes. Na Folha, o editorial “Retomar a (avenida) Paulista” dizia que os manifestantes estavam em “condição marginal e sectária” e defende que “é hora de pôr um ponto final nisso”. Defende que prefeitura e PM “precisam fazer valer as restrições já existentes para protestos” na avenida em questão.


Os editoriais e a postura crítica da imprensa funcionaram como uma autorização. Na noite daquele 13 de junho, ao mesmo tempo em que os policiais militares distribuíam cacetadas em todos que viam pela frente (um repórter fotográfico que cobria o protesto foi atingido por uma bala de borracha no olho e ficou cego), viralizaram vídeos nas redes sociais mostrando PMs quebrando vidros de viaturas para responsabilizar os manifestantes. Os excessos da polícia, que atendeu os editorialistas, mudaram todo o cenário. Jabor fez sua “autocrítica”, os jornais passaram de críticos a apoiadores. Um sinal do apoio: no dia 20 de junho a Rede Globo suspendeu a apresentação de novelas para transmitir os protestos ao vivo.


O apoio da imprensa não veio de graça. Assim como a mídia, a agenda dos protestos também mudou. Cartazes contra a corrupção começaram a aparecer; a PEC 37, uma proposta de emenda á Constituição reduzindo o poder de investigação do Ministério Público também entrou na pauta, na esteira da bandeira difusa “contra a corrupção”. As bandeiras vermelhas desapareceram e em seu lugar entrou a palavra de ordem “sem partido”. Depois de revogado o aumento em São Paulo, o Movimento Passe Livre declarou que estava saindo das ruas. As manifestações seguiram fortes até o final de junho e prosseguiram pelo segundo semestre, chegando ao começo de 2014. Depois de junho as bandeiras giravam em torno da crítica aos gastos com a Copa do Mundo e a cobrança de serviços públicos “padrão Fifa”, referência à qualidade dos estádios cobrada pela Federação para a realização do evento esportivo.


O que dificulta uma avaliação consensual sobre os significados de junho de 2013 é que o movimento começou pela esquerda e acabou pela direita. Foi o momento em que as direitas, mais habituadas a atuar na esfera institucional (o poder econômico tem acesso mais fácil ao Estado do que movimentos de trabalhadores), “descobriram” as ruas, que historicamente são ocupadas por movimentos reivindicatórios mais identificados com a esquerda.


Bibliografia em construção

Confesso não ter lido o primeiro livro sobre as jornadas, lançado ainda em 2013, no calor dos acontecimentos. Trata-se da coletânea “Cidades Rebeldes – passe livre e as manifestações de rua que tomaram as ruas do Brasil”, da Editora Boi Tempo, com ensaios de 15 autores. Mas para reparar esse erro, um livro que já está na minha lista de leituras é “Junho de 2013 – a rebelião fantasma”, uma nova coletânea lançada pela Boi Tempo avaliando os 10 anos das jornadas.


A quente



A edição brasileira de “Redes de Indignação e esperança – movimentos sociais na era da internet”, de Manuel Castells, foi lançada em 2013 com um posfácio escrito em julho, um mês depois das jornadas. No texto, o autor defende que as jornadas de junho indicam um “empoderamento” do cidadão que seria irreversível, numa sociedade marcada por uma política institucional distante das ruas. A internet teria um papel fundamental nesse empoderamento. No livro lançado em 2012, Castells analisa movimentos como as Primaveras Árabes, os indignados espanhóis e o Occupy Wall Street, entre outros, sempre buscando compreender a forma como os novos movimentos sociais lidam com as novas tecnologias.



Em 2014 a socióloga brasileira Maria da Glória Gohn, pesquisadora dos movimentos sociais lança “Manifestações de junho de 2013 no Brasil e praças dos indignados do mundo”. A maior parte do livro discute o movimento brasileiro, mas a socióloga trata também de outros movimentos que usaram a internet como forma de mobilização e organização. Para Gohn, as manifestações são fruto de “uma nova forma de movimento social, composta por jovens escolarizados de camadas médias, conectados por redes digitais e organizados horizontalmente”. Seria uma nova forma de organização, que representaria uma crítica aos movimentos sociais tradicionais, como os sindicatos e aos partidos políticos.



Embora nem Gohn, nem Castells citem nas referências bibliográficas dos seus livros, defendo que suas reflexões dialogam (ainda que indiretamente) com André Lemos e Pierre Levy, que em 2010, pouco antes dessa onda de movimentos sociais conectados, lançaram “O futuro da internet – em direção a uma ciberdemocracia planetária”. Na obra eles projetam a possibilidade de formação de uma opinião pública global mediada pela internet – o que reforçaria a democracia. Olhando essa reflexão na perspectiva de 2023, depois de saber onde as big tech nos trouxeram com seus algoritmos, é possível dizer que o otimismo possível a partir da leitura deles se dissipou no meio da década, na esteira do escândalo da Cambridge Analytica (para compreender o vendaval que levou à ascensão da extrema direita no mundo, recomendo a leitura de “Manipulados: como a Cambridge Analytica e o Facebook invadiram a privacidade de milhões e botaram a democracia em xeque”, de Brittany Kaiser, que viveu esses episódios de manipulação por dentro).

Guerra híbrida

Outra chave de explicação para as jornadas de junho é a tese da guerra híbrida. Um dos que fazem essa relação é o antropólogo Piero Leirner, professor da Universidade Federal de São Carlos, no livro “O Brasil no espectro de uma guerra híbrida – militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica”, lançado em 2020. O livro não se restringe aos acontecimentos de 2013, mas ao analisar a trajetória do bolsonarismo (apoiado pelos militares) rumo ao Palácio do Planalto, paga um “pedágio” às jornadas de junho. Na introdução, Leirner identifica características dos acontecimentos de uma década atrás com as “revoluções coloridas”, estratégia da geopolítica estadunidense na Eurásia, para se contrapor ao avanço de China e Rússia. “Quem eu vi primeiro falar de uma guerra híbrida no Brasil foi o jornalista do Asian Times, Pepe Escobar”, escreve o antropólogo. O uso de “uma vasta classe média não engajada”, a “ampliação do descontentamento por meio de propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar o governo” fariam parte desse repertório.



O conceito de guerra híbrida usado por Leirner parte da reflexão de Andrew Korybko, autor de “Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos golpes”, lançado no Brasil em 2018. Quem também escreve sobre a geopolítica dos EUA na Eurásia é Luiz Alberto Moniz Bandeira, autor de “A segunda guerra fria – geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos – das rebeliões na Eurásia à África do Norte e ao Oriente Médio”. A edição original é de 2013, mas a segunda edição, que está em minha biblioteca é de 2014. Moniz Bandeira não trata das jornadas de junho, mas mergulha na política externa dos EUA para a Eurásia. Em alguns casos, como na Síria, Bandeira fala do uso do youtube para a divulgação de vídeos com informações falsas para “enganar a opinião pública e induzi-la a apoiar a intervenção militar do Ocidente”, no que o autor classifica como “operações de guerra psicológica”.


Democracia borrada



Professor de filosofia da Unicamp, Marcos Nobre lançou em 2022 “Limites da democracia – de junho de 2013 ao governo Bolsonaro”. Na capa a palavra “democracia” aparece borrada, numa indicação de que os limites citados no título estão se esgarçando. A tese central de Nobre é que 2013 foi reflexo do colapso do que ele chama de “peemedebismo”, a forma de construção de governabilidade que prevaleceu depois da redemocratização. Peemedebismo que também é conhecido como presidencialismo de coalizão: como a política brasileira pós-ditadura militar (com o seu bipartidarismo) se caracteriza pela pulverização em torno de dezenas de partidos, nenhum governo conseguiu formar maioria no Congresso. Para governar, os presidentes tiveram que entrar no jogo do “toma lá dá cá” com cargos e liberações de emendas para conseguir o apoio desse bloco que, apesar de suprapartidário, não tem consistência ideológica. Para o “peemedebismo” (ou Centrão, conforme a preferência do freguês), cargos e verbas estão acima das ideias. Nobre defende que a efervescência das ruas a partir de junho e durante o segundo semestre de 2013 representou uma “inédita perda relativa do controle da política” pelo “peemedebismo”, atordoando todo o sistema político e sua lógica de funcionamento. Apesar do baque, o “sistema” não foi permeável às ruas, o que levou à formação de uma oposição antissistema, fora das estruturas da política institucional.


Nobre conclui que, o PT (principal partido de esquerda e que na presidência desde 2003) se alinhou com o sistema político por ser o “líder do condomínio peemedebista” naquele momento, o que empurrou essa energia antissistema para a direita. Quem se favoreceu eleitoralmente das rachaduras do sistema foi alguém de dentro do próprio sistema: Jair Bolsonaro, deputado do baixo clero, que começou em 2014 a caminhada que o levaria à presidência – depois de quase 30 anos na Câmara Federal.


Novas leituras

A avaliação da década posterior às jornadas de junho continua em disputa. Além de séries de reportagens, entrevistas, podcasts, a efeméride também rendeu uma safra de livros. Destaco a “Rebelião fantasma”, lançada pela Boi Tempo e citada aqui. Outro livro sobre a efeméride é “Treze – a política de rua de Lula a Dilma”, da socióloga Angela Alonso, professora da USP, lançado pela Companhia das Letras. Ainda não li, mas já recomendo.


Fábio Silveira

 
 
 

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