top of page

Acima de tudo só o céu

Silvio Demétrio







Desde a primeira vez que vi esse desenho de Alfred Kubin ele me sugeriu a figura de Hunter Thompson. Talvez pelo chapéu típico de safáris. Algo do traço de Kubin conseguiu captar no éter atemporal dos devaneios a imagem de um dos espíritos mais controversos dos loucos anos da contracultura. Alfred Kubin nasceu no final do século 19 e viveu até 1959. Thompson era de 1937 e se suicidou em fevereiro de 2005. É só por puro devaneio mesmo. Uma pura experimentação na qual se emparelha dois domínios absolutamente díspares – um ilustrador e desenhista austríaco ao lado de um jornalista maluco que trabalhou para a Rolling Stone em seus gloriosos anos. Talvez nem tão díspares assim. Dentre outras coisas, ensaios servem para isso – captar as oscilações do pensamento de um “eu” que testa suas ideias enquanto desdobra-se em sua escrita. Um ensaio é um esboço. A virtualidade que pode se consumar num desenho, numa imagem. Nesse esboço de hoje uso como pigmento a sutil matéria do delírio.

Isso não funcionaria em nenhuma outra língua que não o português que falamos aqui no Brasil. É que esse “delírio” do qual falo vem da imprecisão que marcou a tradução do título do primeiro livro de Thompson que foi publicado aqui no Brasil. “Fear and Loathing in Las Vegas” foi vertido para “Medo e Delírio em Las Vegas”. No caso, “loathing” ficaria mais apropriado traduzir-se por aversão, asco, repugnância. Mas pegou. E o delírio também era a matéria prima de Kubin em seus desenhos.

O que eu faço aqui é parecido com o que se entende por intervalo na música. Um intervalo é a justaposição de dois sons que tem alturas diferentes na escala. Quem domina isso na música domina a harmonia, a combinação dos sons. Conforme se faz variar essa diferença de altura se cria climas diferentes a partir da combinação dos sons. Então dentro de uma mesma escala que é a do delírio, eu combino duas figuras heterogêneas cuja distância no espaço, no tempo e na forma de expressão me dão como resultado um efeito harmônico que se estabelece entre suas figuras, suas obras e suas vidas.

Parti de um desenho feito por Kubin que me lembra da figura de Hunter Thompson. Essas são as duas notas com as quais componho um intervalo. E por minha conta e risco experimento ainda mais um passo na corda bamba na qual me meti: a palavra ensaio sempre me pareceu referir-se a algo musical ou teatral. É no âmbito dessas artes que existem “ensaios” de fato. Assim reforço uma maneira musical de pensar essa variação suscitada pela coincidência fortuita da imagem de um jornalista ser evocada por um desenho que não tem qualquer relação com o retrato que enxergo. Porque agora não consigo mais perceber esse desenho sem lembrar imediatamente de Thompson. É uma certa forma de delírio.

Thompson se tornou conhecido pelo jornalismo literário que desenvolveu a partir do registro de suas impressões captadas através de estados alterados da consciência. Sim. Eram os anos 60 e ele não fazia questão de esconder que consumia massivamente drogas de toda e qualquer natureza durante seu trabalho como repórter. “Medo e Delírio em Las Vegas” é o resultado de uma série de textos que Thompson publicou na Rolling Stone e que começou com a cobertura de uma corrida de carros no deserto. Conforme a corrida seguia o seu curso as substâncias ingeridas também entravam em cena como elemento catalisador das imagens e figuras de retórica que se tornaram a marca própria dos textos de Thompson. Foi assim que nasceu o chamado “gonzo journalism”. Thompson foi pautado para cobrir uma corrida de cavalos no Kentucky e voltou com um estudo etnográfico sobre o americano de classe média alta e a decadência dos EUA. Thompson cedo descobriu que o sonho americano era na realidade um pesadelo.

Responsável pela ilustração de De Profundis, de George Trakl, Alfred Kubin viveu em sua juventude a efervescência de Viena no final do século XIX. O que significa que ele também foi colhido pelo impacto da obra de Sigmund Freud. “A Interpretação dos Sonhos”, obra fundamental da psicanálise, foi publicada no ano de 1900. A grande descoberta freudiana do inconsciente na estruturação do sujeito reconfigurou muitas coisas. O traço espectral de Kubin evoca essa relação com aquilo que desconhecemos em nós mesmos. Algo que nos constitui, mas que só temos acesso de forma indireta. Como nos sonhos. Pesadelos. E porque não, delírios e devaneios.

Vejo Thompson no desenho de Kubin porque algo se manifesta nessa associação. “Medo e delírio”. O assombro onírico de uma alegoria que me permite ancorar Kubin e Thompson para criar algum sentido no agora. Meus olhos e percepções pertencem a um tempo estrangeiro a ambos. Vivo num mundo fraturado por uma pandemia global e pela insanidade histórica de um poder que se regozija em reviver o simulacro de uma ordem autoritária como um folclórico Bonaparte de hospício. Algo em mim associa então essas duas figuras e constrói um vínculo com o que vivo agora. É como se o retrato de Thompson que enxergo no desenho de Kubin constituísse o emblema dessa sombra espessa que tenho que enfrentar todos os dias. Sombra que me encara como uma esfinge. Sombra que leva amigos, parentes, que devora empregos, sonhos e expectativas. Um tanto macabro, o desenho convoca o sentido. Um arco de luto que perfura o tempo para sincronizar momentos encarnados nas figuras desses grandes exploradores das sombras que foram Kubin e Thompson. Do medo, do delírio, e da angústia se extrai a coragem de se aceitar vulneravelmente em essência como humano. Frágil, falível e transitório. Quem resolve e arremata essa costura é Belchior com seu verso: “A minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”. Medo e delírio em Londrina e no mundo inteiro quando a política de morte e os fanatismos políticos e religiosos nos encaram friamente em sua ausência de olhos de carne. Não passarão.


Esse é Hunter Thompson:



Esse é Alfred Kubin



Comentários


bottom of page