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A dor da beleza

Atualizado: 5 de jul. de 2023



Algumas coisas são tão bonitas quanto assustadoras. E alguns tipos de pessoas (me incluo inteiramente) não sabem lidar com belezas.


Às vezes, a gente ama tanto que chega a ser cruel, a gente quer abraçar alguém tão forte que o corpo permanece enrijecido, a gente vê um bicho livre e quer prende-lo na sala.


Na minha terceira tentativa de ler Água Viva, fui atropelada pela beleza e sufocada por lágrimas de pavor. Morro de medo dos olhos de Nina Simone me encarando de frente, temo pelo prazer que sinto na violência tarantinesca, meu fascínio pelos mafiosos e suas famílias.


O nó na minha garganta aperta quando o menino Antoine Doinel corre livre em direção ao mar. Imediatamente olho emocionada para minha prateleira de antigos DVDs que ninguém mais entende minhas razões para tê-los e admirá-los.


Tenho vontade de chorar quando abro a porta e vejo os filetes de brilho solar entrando pelas janelas da casa, chorar quando no meio de um dia comum recebo fotos antigas, quando as fotos me exibem criança, quando a memória me revira inteira. Vontade de chorar quando minha mãe faz pudim.


Todas as vezes que uma música fala de fraquezas, eu desabo como se fosse um copo das mãos de alguém desatento. Não sei receber elogios sem me desculpar, a covardia me impede de agradecer ou retribuir.


Sou amedrontada pelo que há de mais puro e humano na realidade da vida. Sou ótima resolvedora de problemas, mas tenho calafrios quando penso em ter nas mãos uma vida ou uma morte.


Lembrei de uma vez, na escola, quando encontrei uma pombinha machucada no estacionamento. Tive tanto medo de ajudá-la, tanto medo... Não pude colocar a mão nela. Corri para pedir ajuda de alguém mais forte do que eu. Quando voltei, toda ansiosa, ela tinha sido atropelada.


Uma prateleira de coisinhas e a alma com um aviso de 'cuidado, frágil'. No final, somos todos cristaleiras.

 
 
 

1 comentário


Silvio Demétrio
Silvio Demétrio
03 de jul. de 2023

Lindo demais Samantha.

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