Gilmar Mendes e as panelas
- Fábio Silveira
- 26 de mai. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 26 de mai. de 2023
Em entrevista ao jornalista Mário Vítor Santos, no programa Forças do Brasil, na TV 247, o Ministro Gilmar Mendes cobrou uma autocrítica da imprensa com relação à Operação Lava Jato, tocada pela “República de Curitiba”, que desandou do combate à corrupção para o
ativismo político de extrema direita. “Eu já citei, quando julguei um dos casos, acho que o caso da suspeição do (ex-juiz e hoje senador Sérgio) Moro, eu chamei atenção de um setorista de uma grande rede de televisão que prestava um tipo de assessoria para as notas que a República de Curitiba iria emitir, o que o Moro iria dizer. Veja nem acho mal que eles tivessem assessores porque de fato talvez tivessem dificuldade de escrever um texto sem erros”, disparou Mendes, alfinetando gregos e troianos.
O “setorista de uma grande rede de televisão” ao qual o ministro se refere é Vladimir Netto, repórter da Rede Globo. O episódio é narrado no livro “Vaza Jato - Os bastidores das reportagens que sacudiram o Brasil”, lançado em 2020 pelo The Intercept Brasil, o site que revelou os bastidores da Lava Jato a partir de conversas hackeadas. Para quem tiver a curiosidade de ler mais, o caso é citado no capítulo “’Um transatlântico’ – o namoro entre a Lava Jato”. Em resposta ao The Intercept, Vladimir Netto diz que não reconhece os diálogos publicados: “eles não aconteceram. Nunca prestei consultaria informal à Lava Jato ou a qualquer fonte”.
Voltando a Gilmar Mendes: o ministro foi além: “os jornalistas deixaram de ser jornalistas, deixaram de ser repórteres para virarem assessores em muitos casos. E isso é grave. Deixam de reportar e passam a consertar, passam a conformar, a assessorar a autoridade. Isso é extremamente grave e talvez só se tenha visto isso em modelos autoritários ou totalitários”. “Por isso que eu acho que é importante que a mídia faça também uma reflexão sobre o seu papel neste caso. E diga que nós erramos”, completa.
Mendes é uma das principais cabeças do STF e se tornou um crítico contumaz da Lava Jato, depois de apoiar a República de Curitiba em suas decisões. Foi ele que, em março de 2016, deu uma liminar impedindo a posse de Lula como ministro da ex-presidente Dilma Rousseff, o que segundo analistas, poderia ter evitado o impeachment. Contradições à parte, Gilmar Mendes tem razão. O comportamento de manada da imprensa brasileira na Lava Jato foi extremamente danoso, tanto para o Jornalismo (e para a própria imprensa), quanto para a democracia. Esse comportamento contribuiu para a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência, o que levou Mendes, em entrevista ao Roda Viva, a identificar na República de Curitiba “o germe do fascismo”. Aliás, a autocrítica cobrada pelo ministro deveria retroagir: foi certo “jornalismo” policial que, ao longo de décadas naturalizou a barbárie que nos trouxe à beira do precipício, legitimando discursos do tipo “direitos humanos para humanos direitos”.
Embora seja difícil discordar de Mendes, é preciso que o ministro também faça a própria autocrítica. Foi ele o relator do Recurso Extraordinário 511.961, julgado pelo STF em junho de 2009 e que acabou com a “exigência de diploma de curso superior registrado pelo Ministério da Educação para o exercício da profissão de jornalista”, conforme está escrito na ementa do processo. Mendes foi relator do processo e em seu voto, que acabou vitorioso, faz uma comparação curiosa entre o motorista que atropela deliberadamente, o cozinheiro que envenena a comida a ser servida e o jornalista: “Ainda que o regular exercício da profissão de motorista coloque em risco a coletividade, o exercício regular da profissão de cozinheiro, como da profissão de jornalista, não o faz”, compara.
É difícil imaginar o que o Gilmar Mendes de 2023 pensa sobre o voto redigido pelo Gilmar Mendes de 2009. Ao cobrar a autocrítica da imprensa, talvez ele tenha aprendido a duras penas (ou não) que a dieta de informações que sai da panela de um jornalismo que se recuse a refletir sobra a sua prática pode ser tão letal para a democracia quanto a comida servida pelo cozinheiro que joga veneno dentro das panelas.
Ao confundir o exercício de uma profissão e sua necessária regulamentação com a liberdade de expressão – que aí sim não pode ficar restrita aos jornalistas –, Mendes confunde opinião com informação. E despreza também o papel fundamental que a formação universitária em jornalismo e a necessária pesquisa acadêmica na área poderiam ter na melhoria da qualidade do que é produzido diariamente nas redações. O fato de o jornalismo ser uma forma de produção de conhecimento sobre o cotidiano com técnicas e métodos próprios de execução da atividade, justifica a necessidade de estudo e pesquisa para formar jornalistas comprometidos com a sociedade a com a sua própria profissão. A negação disso é aceitar de forma acrítica a gororoba servida pela imprensa e criticada por Gilmar Mendes. O resultado é grave e a indigestão na forma de fascismo é certa.

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